segunda-feira, 28 de março de 2016

ESTAGNADA

os olhos a perscrutar o espelho
perscrutar não, encarar.
encarar eufórica a tez cujos traços revelam-se
i nal te ra dos.
encurtei-as, as mexas, outrora vermelhas
jazendo no laranja e
chega!
chega.
praticidade impera
nada de raposas e suas madeixas embaraçadas
atordoadas
caminhando trôpegas
sôfregas
a dedicar-se
da manutenção dos lábios 
cerrados entre as ruas dessa cidade mórbida
tão morta
como era essa ideia boba
noviça
suntuosa
de fugir enquanto há tempo
esconder-se
entre os arbustos.
pálpebras
cogumelos
entre todo o passado
palavras
qualquer dor
minuciosidade 
revelação.
a grande epifania que
repousa
serena
sob os olhos descrentes
e não sobre esse espremer contínuo
essa seiva
artística
niilista
que secou
muito antes de abri-los.
hei de produzir
produzir enfado, que seja
qualquer laço 
transbordante
de energia.
energia suficiente para verter
esse brilho ofuscante
de vida!
e movimentar
pernas exaustas
sob o parquet 
como um animal
irascível
que teve
seus passos
seu coração
seu propósito
saciados
a perder a alma
nesta existência
desprovida de força,
mas, cá entre nós, não interessa
pois guardo-me para quando necessário
e para quando tudo isto sair de mim
realmente sair.

no mais, vou-me bem.


sábado, 26 de março de 2016

1st attempt

There are many good things in life
Jazz
Books
Nature in its many forms
A quiet rainy night
Or the sun when you are cold.
But definitely not people.
You can listen to Miles Davis
While admiring a Picasso painting
And still hate Picasso
Hate Miles
And Hate everyone else in the room.
That including yourself.
We create expectations
Such cliché expectations
That only translate what we need
Inside us.
To fulfill us pretentiously
A subtle excuse
To love immensely
Hate destructively
And that is because
Art
Is created thru us
Not by us.
A long-life force
Evading all that is untrue
And undoubtable.


lis 26/03/2016

segunda-feira, 21 de março de 2016

Eu vejo
Seus olhos azul-topázio
Ouço o estouro dos carros
O ruir das árvores
O tiritar sereno
Dos teus pés
A pisar na brita
No meu canto sôfrego
Desalentado
Na candura do teu olhar triste
Definhando
Tão pesado
Quanto é o peso das cidades
Das horas
E penso que queria ser
Como o coqueiro do mar
Não só o coqueiro
Queria um pesar sutil
E uma esperança ainda mais sutil
Enquanto ela aponta a aurora
Cálida
Desejo significância
incontenção
O grito
Os olhos cerrados
A brisa leve da manhã adentrando o quarto.
Mas a aurora é tão bela!
Que nada vejo.
E de tanto me erguer aos céus
Tombei
Apaixonando-me
Pelas coisas desprezíveis
E dissonantes
Como é o azul dos teus olhos
De teus olhos dúbios
E insisto
Ainda!
E sinto
Sinto amor a transbordar pelos teus dedos
Descompassados
Que erram a letra
Mas não tardam
A recomeçar. 
E quando escapo
Ronda-me
Encanta-me
De gestos, sons e palavras.
Não é de súbito que te lanças
É lento
Demora-te.
Aproveita o corte da carne.
Deleita-se no sangue da presa.
E ainda que escape, segue-me
Visceral e impiedosamente
Para perder-se
Na fantasia
Na fúria incandescente
De uma alma inquieta
Pensativa
Que ascende
Como uma fogueira
E apaga como uma fagulha.

lis 21/03/2016

sexta-feira, 18 de março de 2016

Os grilos enxertam o eco das vozes
Abafados pelos ruídos de gritos incongruentes
Desconexos
Brados apaixonados
Por uma bandeira há muito manchada
Marchando nas avenidas
Dispersando pelas praças
É impossível ouvir o canto dos pássaros
Sequer a ode triunfal
Hoje eu os vi de ponta cabeça
E pensei comigo mesma
Em qualquer analogia piegas
Dessas em que estamos todos de ponta cabeça
Voluntária e involuntariamente
Pelos outros
Por nós mesmos
Pelos passos que enganam os olhos
Revirando pensamentos
Para que não possamos ver
Qualquer verossimilhança
Nos lábios de quem faz ressalva
Camuflam-se temendo a clareza
Pois esta é irremediável
Iminente demais
Para nossos corações tortos
De ideais febris e insossos
Em meio à balbúrdia, ouço
“comer lá pra ver o quê? O concreto?"
Talvez nos falte beleza.
Ouço a camisa listrada
De calça cáqui
A barba feita
Com seu discurso sobre o dólar
A ignorar o trabalhador ao relento
Cujos direitos lhe negara
E sinto ódio
Estes engomados escondidos nas camisetas de linho
Escondendo a exaustão de seus empregados
Escondendo-lhes seus direitos
Afirmando-se sob o concreto
No centro das cidades.
Quando enfadada
Detenho-me frente aos arbustos
Para perceber que o grilo segue guizando
Aquém de toda movimentação
Aquém do murmúrio
N’um ato quase solene
De abstração.


18/03/2016

quarta-feira, 9 de março de 2016

Exasperei-me deste saudosismo natimorto. A beleza entalhada pelas veias tortas de mãos cansadas, sucumbindo nos resquícios de um tempo, agora longínquo, ainda que vivaz. Ainda que sua vivacidade entalhada na memória revire as entranhas.

Quiçá, a névoa emane a tristeza da mocidade, desvencilhando-se do pragmatismo amorfo, das saias estendidas no varal, da chuva a abandonar as orquídeas e as hortênsias. A abandonar qualquer pranto incandescente, tal qual é a inocuidade do meu passo.

Ainda que tenha permitido a escassez das ideias fixas, sei bem que não deveriam ter-me alcançado tais braços curtos, tal riso sarcástico. 

Sei bem que a tolice das mocinhas risonhas, qualquer fantasia regada nas películas europeias e na ode aos versos decrépitos de um que outro poeta decadente, na fala tórpida, no discurso limitado, carente de conclusão, trancafiou-me.

Saúdo, ainda, o eco da tormenta no zinco. As discussões prolongadas pela fúria. Um som e fúria que não me pertencem. Que o artista aprisiona nos seus pincéis e em seu dedilhar, mas que dissipam ao raiar do dia tateando as ruas tórridas. Assim como jamais pertenceu-me aquele jardim. Como jamais pertencerei às matas que embrenhamos no desassossego dos domingos, porque agora a face no espelho é linear. A vejo claramente. Tamanha lucidez desencanta-me como desencantam-me os amores-perfeitos protegidos pelas grades de ferro de edificações silenciosas.

Este sobreviver enfadou-me. Saúdo, ainda, o estalo da carne estraçalhada, das rugas espantadas com a engenhosidade soberba de contos afogados na melancolia. Dá-se quando chove torrencialmente nas casas das viúvas inconsoláveis, nas costas dos bovinos, no salto dos malabares, nas cortinas das senhoras, nos castiçais e brocais, no espectro edificado nas prateleiras.

Assim, permaneço imóvel, batalhando mazelas insolúveis, perpetuando a imensidão das horas. Minha impetuosidade desgraçada na voracidade da existência. Conviver com suas partidas, embasbacar-me de temor e nostalgia há de ser meu fado. Embora haja candura nos lábios, recordações repletas de esmero hei de observar-me inerte, diabolicamente em pé, teimando em desvirtuar o corpo encolhido a desencaixotar debilmente minhas lembranças ao custo da mocidade.

lis 9/03/2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

Os olhos nobres escrutinavam-lhe a face.

Acreditava ser sua maior criação. O jovem a sussurrar no horizonte, na expressão um misto de pranto e encantamento.

Espantava-lhe a intermitência com que o sujeito destoava das horas marcadas e das listas de supermercado. Estava por ser, assim pensava. Tantas vezes lhe ocorrera que seu desdém era incabível e, quantas vezes, preparara os lençóis para se deitar. Vãs observações a remendar a causticidade de viagens breves, amores efêmeros e dependências insustentáveis.

Havia de lidar com o que era real, acreditava. Mas ao deparar-se frente ao padeiro, esgotado ao fim de tarde, sentindo-lhe a infelicidade nos olhos, esquecia-se. Sobrepujava suas mazelas, enternecia-se de compaixão para mingar, novamente, à meia-noite.

Almejava a fúria das correntes marítimas, a impetuosidade das ventanias, toda e qualquer representação de força suficientemente grandiosa para aquebrantar as paredes insossas ante seu descaso. Falhava e, ao passo que desistia, a escuridão das ideias apossava-se de seus passos, tateando na penumbra das horas e desejando, ignobilmente, tocar-lhe a face. Percorrer os lábios venenosos que um dia lhe encantaram, a íris que vez ou outra refletiu o prisma das mais singelas tonalidades. Mentia, pois ainda que percorresse campos verdejantes e temesse a corrida trôpega, sabia, ao toque da relva, a qualidade do solo.

Vez ou outra a expressão abominável dos traumas insólitos emana seus resquícios na incompreensão e o desprezo pelas coisas desprezíveis vem a ser inadequado.

O fato é que ali permanecia, esvaindo sonolentamente no retrato. O sofrimento nauseabundo, o sorriso trôpego do qual quase podia-se ouvir o ecoar do discurso vaidoso, ainda que raso, a emaranhar-se pela semiótica, intrincado na sujeira acumulada, nos montes de roupa suja a desembocar nas pedras brutas e meias palavras.


Entretanto, como é de costume dos homens apoderar-se de sereias, aprisionou-se ao desalento, à meticulosidade e lirismo; à teimosia de provar-se tão ou mais nobre que seu olhar desatento.

07/03/2016

lígia p. schipper

domingo, 6 de março de 2016

Estou sendo devorada pela incompreensão.
Temo, tendo esbarrado em qualquer sopro de felicidade, ficar presa em cômodos abafados. Decido deixar de observar os contornos obscuros sob a face no espelho, prometo abandonar certos vícios, respirar enquanto conto até dez e penso que esta vista é tão linda e acho até que vi o trem passar.
as mãos pospostas sob o mármore
a deleitar-se sob o vazio dos teus olhos cinzentos
quiçá a luz da lua iluminasse
porém
teus olhos
teus cabelos dourados
eram mais belos
que toda tragédia
que todo martírio
que toda dor reverenciada
existente naquele lugar.
abstenho-me dos pensamentos
e passo a fitar-lhe curiosa
livre de todo entendimento
talvez, por coincidência, baixasse-os
víssemos as mesmas folhas
os mesmos insetos
e a mesma dor a perpassar as horas vagas
das ruas frias
e das mãos estendidas
Mas tua atenção é desviada
E canso-me
a percorrer-te de soslaio
e ao passo que me distancio
percebo que teu olhar escrutina as plantas
permanece
imóvel
intocável
como toda minha vontade.