sábado, 10 de outubro de 2015

Sobre dores brutas

A beleza parece ter esvaído. As lembranças esmaecem furtivas na calçada, são balançadas pelo vento confundindo-se, escondendo-se. Falta-me a clareza dos anos pueris, a certeza de que as árvores florescerão em outubro, o silêncio pertinente do meio-dia às quatro da tarde quando o apito da chaleira fervente ecoa na cozinha e esbalda-se no sabor das compotas e geléias.

Saber exatamente o que contemplar. Demandar tão somente o que posso compelir-me a fazer. Abandonar o que está corrompido por falsetes desrespeitosos. Libertar-me de obrigações penosas, cujo peso faço questão de multiplicar. Minha alma perece a cada suspiro condensado por agonia e saudade, estanca quimeras cultivadas com o zelo dos anos, putrificando suas reminiscências. Não perpetuo odes ao passado. Trata-se de um Eu em desencanto preso a dúvidas e dores outrora transmutáveis que foram tragicamente substituídas por angústias primitivas que assolam meu corpo e reviram meus olhos.

Queria escrever livremente como um dia o fizera. Abandonar sofrimentos insustentáveis e decepções proféticas. Libertar-me desses laços apertados, continuamente pospostos sob meu peito a espremer a vida que me resta.


Como se já não fosse suficiente profanar-se.


Lis 10/10/2015