domingo, 21 de junho de 2015

Da Pele

A passos largos adentrava a névoa de junho. Lhe faltava o nariz arrebitado, compensando no olhar a pretensão que o primeiro representava com um toque de frieza incomum para as moças de pele fresca e boca avantajada.
Ao contrário dos demais, caminhava pretensiosamente. Negava a teimosia de apequenar-se nas ruas compridas. O ressoar de suas pisadas intrépidas por muito tempo questionara sua ausência de avidez nas horas vagas. Tratara de construir um cercado de dentro para fora, ornamentado por vestes elegantes e olhos de um verde cansado que fracassava em descrever.
Olhos que se confundiam na bruma do passado, misturando-se com outras íris cujos tons esverdeados nasciam nas esmeraldas e findavam no musgo.
Afora a descrição desta mocinha, não se podia deixar de notar o sujeito que a acompanhava. E então fizeram-se dois.
A passos largos adentravam a névoa de junho.
Ele. Sabia bem que estendia as mãos a uma criatura verdadeiramente desconfiada. Suas convicções artísticas e pessoais permaneciam intactas à medida em que ela o desconstruía, mas deste movimento era ignorante.
- Quem diabos se preocupa com relações de poder em pleno século XXI? – Bradavam outras almas inquietas.
E, quiçá, se tratasse apenas deste Forte que deixara construir dentro do ventre e projetara na ordem autoral dos livros ou no posicionamento dos anéis nos dedos tortos.
Andava por explicitar-se em demasia e isto a incomodava. Queria retomar as rédeas da ficção, discorrer em terceira pessoa, atribuir seus ódios a outros personagens, desmiuçar os sujeitos que destrinchava sem evocá-los na memória, mas falhava colossalmente.
Havia de libertar-se dos pudores ao ódio.
Pois sabia muito bem que odiava.
Desprezava os pacholas que a circundavam folheados de um narcisismo infundado, recheados de verborreias desconexas, amantes de estratagemas baratas, grotescos em suas vestes e no polir de suas figuras – aquém do que é supérfluo e do que é poético. Afinal, como esquecer-se daqueles a que o lirismo rejeitou sem sequer arrepiar os pelos dos braços pela brisa das quatro horas?
Sabia bem que estava por definhar em lábios mansos e duvidava de quaisquer enunciações provindas de suas carnes secas, ainda que insistisse em seu desmazelo.
Podia, muito bem, distribuir tabefes nas barrigas pululantes de odes altivas medíocres a priori de suas criações, entonadas por homens de meia idade frequentadores de cafés coloniais caríssimos que gostam de falar sobre rock anos 60 e exaltar a complexidade de suas poesias meio-cópia de Borges meio-plágio de Drummond.
Um asco infindável lhe consumia as entranhas. Constatar a importância desmedida de tais figuras e ter de calar-se diante de seus discursos transcendentes apenas de seus dentes vorazes constituía uma de suas maiores e mais vergonhosas humilhações.
Envolta em delírios de grandeza e beleza, agitava-se na cama e sussurrava pesadelos menores, dialogando em línguas mortas tudo quanto não podia descrever.
Carente de qualquer significado, consumindo alienadamente os recursos aos quais tinha acesso e exigindo, em um misto de desgosto e revolta, os antigos olhares e as derrotadas incertezas de que se alimentavam seus sonhos adormecidos.
Por fim, observou-se novamente no espelho, não tão magra e tampouco esperançosa. A sombra de seus cabelos a tocar a tez empalidecida desperta o desejo de correr, só, pela névoa de junho outra vez.


21/06/15 lis