quinta-feira, 14 de maio de 2015

Rodapé

Esparramada no tapete da sala. Coberta por pêlos e cabelos emaranhados enquanto olhava de soslaio para os lustres pendurados a tão pouco tempo, talvez por vaidade ou recordação. A lembrança de outros cômodos amarelados de paredes cor de violeta e flores no teto, além de tudo mais que não podia descrever, pois as palavras lhe haviam abandonado e a falta delas muito lhe incomodava, a não ser naquele curioso fim de tarde que teimava em estender-se.

Quem sabe estivesse saudosa das canções que ouvira nos desenhos infantis, mas que jamais nomeara, espantosamente ressurgindo na subida lenta até o banco. Ali, no entanto, era risível a beleza que surgia de tão destoante pensamento: o clássico perfeito para um terror. Como estes clichês de fogo e gelo, amor e ódio, filmes pós-modernistas ou péssimas ideias meticulosamente revisadas. Apesar disto, a epifania desafiante resguardava-se na percepção de que paredes poderiam ser pintadas, móveis reformados, medos enclausurados e até mesmo a vida retocada – uma banalidade por muitas vezes rechaçada que gritava descompassadamente fazendo-se notar. Ainda que esta caminhasse lenta e impetuosamente para o fim, suas reminiscências haveriam de perdurar no idealismo das paixões, no toque sôfrego dos ombros caídos, na fumaça que dissipava - mas espalhava seu odor - nas horas, nos contos: nela e sob ela.

Perdurar, acima de todas as coisas, aquém das memórias e das insatisfações. Talvez fosse este o paraíso pelo qual vagara mansamente anos a fio. Um abismo do qual incessantemente se jogasse, arrebatando-se ao sentir a frigidez do pulo para então acordar, em um misto de susto e alívio, no meio da noite.


Lis 08/05/2015