domingo, 3 de maio de 2015

O sabor das maçãs

Sinto pelo fogão a lenha esquentando a cozinha de portas fechadas e as panelas, cheias de água, repousando sob o ferro quente às brasas. Rememoro a sensação de ter o rosto aquecido enquanto esperava as meias recém lavadas secarem, evitando a todo custo que o odor do almoço requentado impregnasse os cabelos amarrados, muito embora insistisse em aproximar o nariz e as bochechas avermelhadas para enxergar a paisagem turva que desbotava no fogo brando.

Clamei por sensações tão incipientes no cume de minha solidão e enternecimento moral pelas memórias do passado enquanto escolhia a contragosto os moldes de uma vida tão pacata quanto as mulheres que queimavam o papel e adicionavam a lenha logo ao despertar. Provei com parcimônia os mais variados deleites, meticulosamente empreguei-me às obviedades do dia-a-dia, desconstruindo em negação tudo quanto fazia de mim o que sou, tampouco questionei as horas vagas, os programas enfadonhos, as belezas medíocres, as odes insolentes de surtos pessoais e prematuros que muito titubeavam pelas ruas de uma cidade, ainda, impiedosa. Descobri adentro de um surto maníaco-masoquista a felicidade das praças, do dinheiro, do ilimitado, tão somente para sorrir sem culpa e desmentir-me, mais tarde, diante do espelho. Entretanto, minto sobre tamanha plenitude. Como era esperado, travei batalhas menores contra criações mundanas fruto de meus próprios pesadelos e estratagemas, desmistificando certezas até então imponentes e embaralhando em demasia minhas entranhas em um misto de ternura e ódio do qual teimo em não me desvencilhar.

Convertida em nada mais que os pacholas um dia objetos de minha repulsa, tratei de enfiar-me no mais úmido e sórdido dos esconderijos remanescentes de meu delírio. Cambaleando por entre as vigas soltas e observando, ainda mais taciturna, o decorrer da vida pela poeira que estendia-se da janela ao chão em sintonia com o iluminar cor de cobre que entrava, sonolento, pelas grades meticulosamente forjadas em metal; tão destoantes desta objetividade da existência que nos é forçada pela garganta. E este observar doentio do que não é de uso algum, nada além de ócio carcomido pela miserabilidade de explicações, é o que restou de mais sincero daqueles anos molhados de ininterrupta ventania. Tentar imponderavelmente, aquém do desejo furtivo e das mazelas estancadas, não passou de um balbucio impertinente, criador de um sofrimento obsoleto que apenas amedronta e torna putrefatas as criações da vontade.

E é por imensurável decoro que tento assolar estes vis e medonhos pensamentos em recordações repletas de esmero, mas profundamente tristes por terem esvaído tão sutil e silenciosamente quanto a madeira abrasada do fogão a lenha.


 Lis; 03/05/2015