domingo, 31 de maio de 2015

Lucidez

Eram temerosos os seus passos. Escorria pela calçada como gotas finas de uma chuva silenciosa, espalhando-se a se desintegrar nas folhas. Por trinta minutos encontrava-se vulnerável a quaisquer travessuras do passado. E, não obstante sua recriminação, relembrou-se de uns amores pérfidos por ora almejados que inúmeras vezes se embrenhavam nas cercas finas nas quais passavam apenas suas mãos.

 Fortuitamente, o sinal fechado censurou seus devaneios. O titubear de seus pensamentos manifestava-se apenas no passo veloz do qual muito se orgulhava e que cultivara desde a mais tenra infância, mas que adormecia com a quietude da alma. Olhava os transeuntes de soslaio, deixando-se cativar por uma que outra silhueta. E como gostaria de transbordar em tais olhares! Libertar-se em seus braços estendidos, suas vestes flutuantes e suas palavras vorazes carregadas da amargura e do amor que se alastram pelas pontas dos dedos. Aceitaria um abraço estranho que a pudesse embrulhar e apequenar o insuportável tamanho de seu ser. Torná-la doce como um verso despretensioso. Fazer de sua agonia um sussurro que se canta na praça ao sol de domingo, afinal para que tanto medo? Tanto apego à decadência?

Felizmente, jamais buscara em ombros alheios um apoio para suas pernas mancas. Disto podia orgulhar-se. Mas não da inércia e do discurso condescendente a se acambrunhar diante de pretextos abusivos forjados por observadores teimosamente rasos. Se era caos ou leveza, quem sabe? Lembrar-se-ia muitos anos depois dos arquétipos que desconstuíra, dos longos braços arrepiados pelo vento das quatro horas, das gargalhadas por ela recriminadas, da saudade dos cafés que não sobreviveram aos Anos Gloriosos e dos cães abocanhados pelo tempo antes que se pudessem abrir as portas da sala.  Aquém de seu delírio, gozava de seu definhar nas noites mal dormidas, nas ideias mortas, em tudo que não punha em prática e ao mesmo tempo que murchava deixava brotar qualquer urgência inoportuna pela vida. Um desassossego mordaz que a movia pela casa, pelos quartos, pelo pátio e jazia sob a terra fofa com os galhos finos da jabuticabeira.

Acomodou-se, pois apesar da reciprocidade, da curiosidade, do toque e do ranger de sua fortificação envelhecida, findaria em si mesma carregando o fardo de saber que não há nada mais belo e triste que um sorriso perdido no tempo. 


Lis 31/05/2015