terça-feira, 22 de outubro de 2013

Presságio

Há dias caminhava lentamente pelas calçadas de pedra como se não mais adiantasse apressar-se pelos boeiros da rua. Não porque estivesse sossegada ou infeliz; tratava-se de um receptáculo vazio, cuja essência percebera a fragilidade do objeto e dissipara-se em busca de um novo corpo que o protegesse. 

Os olhos dispersos por vezes implicavam com uma folha ou um graveto. Em uma destas implicações que percebeu a morte antes de sua aparição. Pudera tê-la visto a caráter e não sobre a névoa das horas que se estendiam por seus passos magros, pobres. Vira-a na senhora cujo ônibus esperava com aflição. No jardim descuidado e - como era clichê! - nas flores de plástico espalhadas pelo cemitério. A paisagem confundira-se com escolas e casas soberbas. Ouvia soluções traiçoeiras de bocas inocentes que reviravam o passado em busca de conforto.

Quando percebeu o resultado de seus pensamentos soube que jamais se perdoaria; pois apesar de toda a dor sentida, de todos os gritos falsos e das lágrimas sufocadas, o jardim ainda era belo e seu corpo haveria de sustentá-la.


L.P.S.