terça-feira, 22 de outubro de 2013

Presságio

Há dias caminhava lentamente pelas calçadas de pedra como se não mais adiantasse apressar-se pelos boeiros da rua. Não porque estivesse sossegada ou infeliz; tratava-se de um receptáculo vazio, cuja essência percebera a fragilidade do objeto e dissipara-se em busca de um novo corpo que o protegesse. 

Os olhos dispersos por vezes implicavam com uma folha ou um graveto. Em uma destas implicações que percebeu a morte antes de sua aparição. Pudera tê-la visto a caráter e não sobre a névoa das horas que se estendiam por seus passos magros, pobres. Vira-a na senhora cujo ônibus esperava com aflição. No jardim descuidado e - como era clichê! - nas flores de plástico espalhadas pelo cemitério. A paisagem confundira-se com escolas e casas soberbas. Ouvia soluções traiçoeiras de bocas inocentes que reviravam o passado em busca de conforto.

Quando percebeu o resultado de seus pensamentos soube que jamais se perdoaria; pois apesar de toda a dor sentida, de todos os gritos falsos e das lágrimas sufocadas, o jardim ainda era belo e seu corpo haveria de sustentá-la.


L.P.S.

fado

no, you're not.

Seu desmedido encanto por rachaduras, mofo e cogumelos pisoteados talvez fosse explicado pela ausência de compadecimento aos que da massa corrida e tinta fresca viviam. A paixão que sentia - assim como alguns de seus companheiros - pelas mazelas e corrupções era simplória e condenava àqueles cujos sorrisos estarrecidos ecoavam pelos ambientes incapazes de preenchê-los. A miséria da alma destituía o mundo ao qual se curvava e desdenhava da cobiça e do espanto. Tatear o tempo era um exercício ignóbil, covarde; nada além do desalento que perpetuava sua estada.
Quiçá estivesse fadada a morrer só e infeliz e por muito desejara tal destino. Suas entranhas suplicavam que a desesperança desvirtuasse não só os pensamentos e a energia como também o corpo, desabando-o intrépido e odioso quando permanecia diabolicamente em pé, acima de qualquer sofrimento, doença ou pesadelo. Resgatar-se, contudo, era tarefa intermitente e ao tocar o chão esvaia-se, impedindo o cerrar dos olhos tortuosos pela bruma. Desolados, estiravam-se pelos lençóis sentindo o fracasso renegar a existência. Acreditava que o fim haveria de suceder à tentativa, porém uma única e certeira, ainda que a dúvida fosse inexorável e as mãos tremulassem.

Sorrir, talvez, coubesse apenas às moças de lábios rosados e aos rapazes de pés ligeiros. Deixou-se observar os pássaros ao entardecer, contemplar as vigas de madeira que há muito ameaçavam desabar e serviam de adorno para a sala. Afinal, como se não fosse importunada pela dor, encolheu-se lentamente. A vida sugara-lhe o corpo. Podia, enfim, não ocupar espaço, permitindo ser encaixotada e guardada em qualquer cômodo velho.

                                                                                           Lis; 23 de janeiro de 2013.