quinta-feira, 6 de setembro de 2012

The lady at the cemetery

As rachaduras nos vasos contavam suas histórias aos túmulos cujas flores de plástico não chamavam a atenção da Senhora no cemitério. Seus olhos eram fixos nas fotos das lápides e casebres em que, no pequeno espaço, tentava-se recriar o lar onde aqueles mortos um dia respiraram. 

Caminhava lenta e cansadamente. Seus olhos eram castanhos e sua boca murcha. Os lábios, um dia vorazes, haviam silenciado, pois quando proferiam as palavras nada podia ser ouvido. O dia ensolarado não dignificava as covas de cimento e as cruzes de cobre furtadas. "Como alguém apreciaria sua morte aqui?" - questionava uma infância esquecida em suas memórias. Se pudesse, quem sabe, tomaria os corpos de todos e os jogaria no mar como comida para os peixes e libertação para a alma. Melhor não atribuir aos demais tolos sua própria tolice - resolvia. Apenas Ela. Apenas aquela que um dia a acompanhara à feira e colhera as maçãs poderia ter este destino. Ela, que uma tarde, em uma conversa usual pedira às duas que mais valorizava seu último e simplório desejo: ter suas cinzas levadas pelo mar do alto da maior montanha alcançável, para que, então, pudesse fazer jus à vida que jamais tivera. 

Penoso é este arrependimento. Por isto vaga hoje no cemitério, esperando que das tumbas levantem-se os mortos e voem, como voa o sabiá, até o oceano.

Lígia P. Schipper; terça-feira, 04 de setembro de 2012.