quinta-feira, 2 de junho de 2011

Éramos

Ela pisava nos cogumelos como se fossem eles pequenos monstros presos a terra. Não sabia se era por raiva ou apenas pela textura que provocavam. Era agradável pisoteá-los e ver seus pedaços misturando-se à grama molhada ao redor da cerejeira, há muito, morta. Era inverno e o jardim estava repleto do verde escuro que o frio provoca. As jabuticabas despontavam na grande árvore enquanto as pessoas passavam do lado de fora desejando-as sedentamente e, as mais astutas, escalando o muro mediano que as separava da confusão das ruas.
Estava silencioso para uma tarde de domingo. A monotonia abrasava de tal forma aquele vinte e nove de maio que nem mesmo os canários e os bem-te-vis cantavam seu canto triste e cansado. O vira-lata rosnava e o cenário pitoresco era preenchido pela velha que estendia as roupas no varal com a precisão de um mosaico. Silenciosa a vida quando os pássaros cantam... pela janela viu-se o rosto amargo de um velho conhecido cujo nome, se citado, causaria o fim de um mundo e o desmoronar de uma cidade inteira. A rua contígua relembrava as cenas petulantes dos filmes cujos túneis de carros eram túneis do tempo por meros efeitos de velocidade televisiva, zombando da inteligência e imaginação do observador. Contudo, agradabilíssimo fora contribuir para tal galhofa quando, na extrema necessidade de sobreviver, ríamos e fazíamos chacotas daqueles que nos pareciam inferiores. Poucas foram as vezes em que soubemos diferenciar as formigas das baratas.
Agora, chafurdados no cinismo e vagando pelo templo obscuro do perdão, apreciávamos como doentes o dia-a-dia de uma jovem cujo nome almejávamos saber. Deleitosos os momentos que podíamos captar e resguardar em memória para, mais tarde, quando ninguém estivesse nos fitando, pudéssemos gritar ao gozo eterno daquilo que jamais possuiríamos. Tolos, inócuos, ignóbeis éramos nós. Somos?! Somos? Somos... Os pormenores tornaram-se insuficientes com o debater dos secos e mortos galhos na janela. Lagos congelando e peixes mortos na prateleira do supermercado. Diante da praça central a exímia loja de flores artificiais. Mera ignorância humana ou um grito de ironia mediante tais afrontas que o mundo contemporâneo nos incumbiu? Sabíamos tanto e tanto negávamos compreender. A ausência de vida tornou-se a ausência do desgosto. O desgosto que nos faltava destruiu nosso orgulho. Assim que se esvaiu a presunção, regenerou-se algo há muito esquecido. E então, naquele momento, sabíamos que já não éramos mais.

Terça-feira, 31 de maio de 2011; Lígia Portela Schipper