quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Conto de Natal

Amanheceu com os pássaros cantando à relva e espalhando a chuva. Na sala, nada além dos presentes fechados nos pacotes coloridos à espera das crianças com seus enormes sorrisos para abri-los. No purgatório humano, as horas nuas nada tinham além de seu pudor. Entre a rosa flamejante, o Adônis seco: apenas espinhos. Talvez fosse uma manhã triste onde sequer as nuvens passeassem pelo céu... ou melhor - cientificamente correto - o mundo não girasse. As palmeiras verdes com seus tons amarelos cujas folhas paradas renegavam toda a beleza daquele dia. A fechadura do quarto primeiro da casa onde nem mesmo o sol poderia entrar foi aberta coloquialmente e dela surgiu a Mãe. Após sua aparição, e vindas atrás de suas pernas como uma pata e seus patinhos, as crianças agarradas aos seus tornozelos implorando para que abrissem seus presentes correram para a sala. No sofá em frente à árvore de natal - que significado algum teve para toda aquela geração a não ser a ganância corrupta de um pouco de doces, presentes e, é claro, o glorioso momento em que era ela posta em pé e decorada com o arrojo das criaturas infantis que por ali pairavam - fruíram dos mimos. Algumas bonecas, alguns ensejos perdidos brincando com elas e o reflexo da água cristalina nos baldes que um dia puderam desfrutar da água da chuva agora apenas refletiam as cercas da prisão onde, quando já grandes, brincavam elas com a vida das pessoas. 

Lígia Portela Schipper; sábado, 25 de dezembro de 2010