quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Amor

Ele compartilhou um daqueles sentimentos que são representados por características fortes às tempestades repreensivas. Retirou, do fundo do próprio segredo carnal, parte de si e entregou-a a mim. Quase como uma confissão. 

domingo, 31 de outubro de 2010 - Lígia P. Schipper

A Não-epifania

Todas as vezes em que você ficou parado(a) em frente ao espelho, narrando suas vitórias imaginárias e com iguais chances de realização futura que de não realização, ostentando toda sua aparente inteligência e geniosidade, fosse no que fosse, abrem espaço periodicamente a propósitos aparentemente menos significantes que a realização de seus sonhos. Então, não a maturidade - porque esta talvez já tenha sido há muito adquirida -, mas a necessidade, apalpam a vida com a glória da satisfação bucólica, simplória e até mesmo da fútil resignação. Denota-se, enfim, que mesmo aqueles imensuráveis prazeres imaginários e a beleza que podia transpor a lentidão do tempo são substituídos por amores maiores, porém não tão excêntricos. Gradualmente, todos eles tomam o tempo e substituem a dor clichê e as frases que gostaríamos de proferir ao som do mundo, sendo assim reconhecidos por nossos indubitáveis talentos. O resultado de tão complexa questão tarda a clarear a escuridão em que tateamos na busca da iluminação, do efêmero efeito satisfatório que não existe: facilmente penetrável é a escolha de que tudo se trata. Certas decisões anulam outras e o mais comum é que não se possa tê-las todas em sua plenitude. Final e pateticamente, apesar de toda e qualquer negação e da convivência com aquilo que nos tornamos - visto que nos misturamos na multidão, destacando-nos às vezes em outras áreas - temos certeza de que houve o equilíbrio perfeito entre ilusões e realizações, nos permitindo - de alguma forma - satisfazer o pouco de felicidade pela qual respiramos. 

No fim, os sonhos apenas mudam.

Lígia Portela Schipper; quinta-feira, 13 de janeiro  de 2011


E, então, será que mudam assim, tão repentinamente? Porque, de fato, agora me fazem falta, tardam a acolher-me, definho na vida comum, busco o sentimento que um dia vivenciei ao escrever tais linhas, a certeza, a efemeridade que muta e eterniza. Ah! Que falta fazem os meus quinze anos, quanta saudade há das horas sedentas por minha alma inquieta, pelas esperanças de fuga, pelas escolhas das quais, hoje, me arrependo tão imensa e sofridamente que poderia, certamente, desfazê-las sem titubear se me fosse dada a oportunidade. Porque não há quimera maior do que ser aquilo que se é, do que conquistar aquilo que se almeja, do que estar inteiramente absorvido na vida que desfruta, mas que não desprende-se de todo o restante. E como dói! Como dói ser medíocore. A ansiedade prevalece aos saltos de intrepidez e rasuram as fantasias coloquiais de uma alma que desapegou-se da solidão. Comentando e questionando à mim mesma posso perceber o quão ingenuamente comportei-me durante todos estes anos, acreditando estar acima de qualquer repreensão e livre da possibilidade de ter a criatividade e as palavras aniquiliadas, sufocadas pelo que me tornei e ter de escrever, não mais bucolicamente, mas agressivamente sem aliviar-me de qualquer forma.

14/04/2015

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Conto de Natal

Amanheceu com os pássaros cantando à relva e espalhando a chuva. Na sala, nada além dos presentes fechados nos pacotes coloridos à espera das crianças com seus enormes sorrisos para abri-los. No purgatório humano, as horas nuas nada tinham além de seu pudor. Entre a rosa flamejante, o Adônis seco: apenas espinhos. Talvez fosse uma manhã triste onde sequer as nuvens passeassem pelo céu... ou melhor - cientificamente correto - o mundo não girasse. As palmeiras verdes com seus tons amarelos cujas folhas paradas renegavam toda a beleza daquele dia. A fechadura do quarto primeiro da casa onde nem mesmo o sol poderia entrar foi aberta coloquialmente e dela surgiu a Mãe. Após sua aparição, e vindas atrás de suas pernas como uma pata e seus patinhos, as crianças agarradas aos seus tornozelos implorando para que abrissem seus presentes correram para a sala. No sofá em frente à árvore de natal - que significado algum teve para toda aquela geração a não ser a ganância corrupta de um pouco de doces, presentes e, é claro, o glorioso momento em que era ela posta em pé e decorada com o arrojo das criaturas infantis que por ali pairavam - fruíram dos mimos. Algumas bonecas, alguns ensejos perdidos brincando com elas e o reflexo da água cristalina nos baldes que um dia puderam desfrutar da água da chuva agora apenas refletiam as cercas da prisão onde, quando já grandes, brincavam elas com a vida das pessoas. 

Lígia Portela Schipper; sábado, 25 de dezembro de 2010