terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Orvalho

Perdão aos descrentes na benevolência humana que por muitas vezes renegam os sórdidos atos de que somos capazes e aderem a estereótipos para permanecerem de voz eloquente e discurso sagaz, mas naquela tarde o sono foi interrompido pelo temor do ser que cresce calmamente no ventre de sua mãe. Destruiu-se o campo verdejante por onde corria a imagem daquela que não nascera até então.

A donzela de belos olhos e bela alma havia denegrido parte de sua consciência em descuido de seu corpo e de si mesma. As consequências de tão efêmero ato não tardariam a ascender e as privações consolidariam o maior de seus temores. Entre a vida na irresponsabilidade e ruína de tantas vidas - porque não se trata apenas dos que oferecem os genes - o prematuro findar era a iminente decisão. Os moralistas arregalam os olhos e gritam a todos os surdos o horror da situação, esquecendo de seu contexto. Se cria-se algo puro em meio à desordem, este se torna a balbúrdia. É fato que inúmeras são suas opções, no entanto - de imediato - esta seria. 

Assim sendo, no café da manhã as duas - porque sim, a criança estava a par da situação - constataram também que ali não havia ainda um ser humano em toda sua complexidade e imperfeição. Havia sequer a oportunidade de havê-lo. Se a caminho do mundo permanecesse, não receberia uma dádiva e sim um tormento. Mais tarde, durante o almoço, avistaram dois vizinhos aos cochichos na calçada. Um deles, muito magro, esculpia o espanto na face e o outro, já velho e de grande barba, arregalava os olhos da maneira que os moribundos fazem na presença da morte. Definitivamente a prosa transcorreu outros rumos, contudo na imaginação e receio das duas criaturas que se alimentavam nada além delas poderia ser tão interessantemente discutido. Emergiu no lamacéu de dúvidas a carcaça da vergonha, avisando-as que a aceitação próxima é tão superestimada quanto a individual. O que seria das duas se desta vergonha provassem?

A campainha soou e adentrou a casa o terceiro indivíduo principal da trama. O pai que, tão jovem, estava calmo como o orvalho na folha verde sem saber que ao tocar o chão dividir-se-ia em milhares de gotas que possivelmente reencontrar-se-iam apenas ao evaporar. Falecer não era empecilho. Medo real era o de padecer e ter de explicar as complicações provenientes da decisão. Pela última vez o feto subiu a escada de madeira. Compenso a ojeriza dos seguintes momentos com o mistério de uma quimera doce.

Parecendo saber seu destino, os grandes olhos negros da menina fitavam sua amada despedindo-se do chão que jamais tocara e das frutas que jamais provara. Além de, é claro, dos beijos e abraços que não conseguiria arrematar e dos direitos pelos quais não lutaria. Tão plácida, foi-se da mesma maneira como viera: sem mais nem menos.

Atemo-nos tanto a bondade universal que abdicamos da própria boa vontade. Entre o viver e o sobreviver, alguns têm a chance de compreender tal enigma. Outros não.

Lígia Portela Schipper; segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Oscilando entre o início e o final.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Existe uma diferença, uma sutil diferença, entre um jornalista e um escritor. O que é? Ora, descubra!

sábado, 4 de dezembro de 2010

A morte tem parecido tão bela ultimamente.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

prosa.

- Você não sabe o quanto é ignorante.

- Não, não acho que eu seja ignorante.

- É claro que você não acha. Você não pode saber disso porque jamais transcendeu este fato. Se o tivesse feito, saberia o quão ignorante foi. Mas, como não o fez, não sabe o quanto é. Você jamais provou da mudança. Você é tão apática quanto as fotos que tira.

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Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 01 de dezembro de 2010. 23:44