terça-feira, 23 de novembro de 2010

Zero De Sentir

Benevolentes são os pedantes que do semblante não desmarcam os pesares. Estou presa num escafandro. Observei-me no espelho. A face entalhada refletiu duas facetas. Uma delas lisa como a de uma boneca prolixamente desatinada e outra, cujas rugas determinavam a velhice. De um lado raiva; de outro, tristeza. Isto tudo se resumia ao olhar. Em um lado do mesmo rosto, o mesmo par de olhos tinha vida própria e assumia caráteres tais que pacholas comuns jamais distinguiriam.

O possível vindouro, a vivência do cerne bestial das sendas e sondas. Bajular-me-ei aos confins da terra. Ante, é claro, da clareza com que os anos perfuram nossa mente. Fiz violar a aurora e sequei o que me mantinha piscando os olhos. Afora tais herméticas conjunturas, percebi que dos equívocos cometidos pude, enfim, distinguir as respostas assertivas. O espectro vazio que me observa no espelho dimana o odor azedo das quimeras renegadas. O que sei no momento, ainda que pouco, randomicamente significa a redundância e perífrase de um ser. Abdicando disto, intercalo para o tópico principal que move meus dedos: a incompetência.

Tenho sido incompetente. Por infâmia, quiçá, ocultarei suas raízes a fim de destruí-las. Focalizo num tema apenas que me perturba em demasia. O deflorar do cobiçar. Raríssimas são as ocasiões em que o ser humano arrepende-se do que não sente. Usualmente, o que lhe fere é aquilo que pode ser doloroso até nas entranhas. O prazer do não-sentir é, presentemente, um incômodo que permeia meus brocardos. Algumas semanas atrás eu sorriria nestas condições.

Estranhamente almejo sentir algo que não sinto e fracasso na tentativa. É extremamente inquietante isto. Há em vista muito com que se preocupar, contudo estratifico as diagonais, vértices, comprimentos, larguras, alturas e zero. Zero de sentir. O peso do não Ser triplicou. Igualmente à falsa coral, rastejo confundindo os turistas. É pena. Sensação desoladora esta que se apossou de mim. Sinto-me incapaz de tantas coisas e de tantas coisas desejo bocados.

Embaindo a si e aos outros. Anulando futuros, abortando oportunidades. Sem escrever e sequer com palavras. Vou assim, pateticamente calada e transtornadamente triste. Um fracasso ambulante, de fato. Desta vez, a única que pode livrar-me do escafandro sou eu. E o que me pinica (vejam só!) é justamente ausentar em meu semblante tamanha descoberta.

Lígia Portela Schipper; terça-feira, 23 de novembro de 2010