sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Liberté

Eu quero o meu cantinho. 

O canto, mesmo apertado, onde eu possa pintar as paredes da cor da minha alma e oferecer aos poucos convidados o conforto da poltrona macia que afunda como areia movediça. As quatro paredes onde os sussurros não são ouvidos e os olhares perdem-se. Porque eu não importo-me com a grandeza dos espaços sobrando ou dos custos a cobrir. O cubículo onde, mesmo longe daquilo que chamei de lar, poderei sentir ao meu lado aqueles que amo. Quer mortos ou vivos. Sentada na varanda, ouvirei a melodia escolhida mesmo com o barulho dos carros porque, em minha consciência, haverá serenidade. Das janelas o mundo e, afora, a vida. Um céu particular no meio da calçada. Invasões? Apenas as minhas e ao meu modo. A cama, a mesa, as folhas e as canetas, os objetos peculiares ou não, cada fibra do meu corpo espalhada por cadeiras e livros. As tortas e os suplícios. Embora ainda fossem existir as mazelas, existiria a minha solidão. A completa, não a forjada. E então, sentada, eu desdenharia de tudo isto porque é dessa maneira que se faz e é assim que me tornaria livre.


Lígia Portela Schipper; sábado, 16 de outubro de 2010