terça-feira, 5 de outubro de 2010

Auto (in) suficiência

Às 06h15min Velvet Underground iniciou o melódico som provocando o movimento independente das pálpebras na garota deitada. As cobertas enroladas eram preguiçosamente tocadas e puxadas. Como a corda que sufoca o condenado na forca, os montes felpudos de veludo e nylon estagnavam as forças matinais da jovem que despertara. Muito mais enrolada que a coberta estava sua vida.

Zonza pelo barulho inesperado, cambaleou até o banheiro para o costumeiro banho. Traçara uma rotina com o intuito de prover mais dos dias. Infelizmente obteve apenas a maior absorção daquilo que a tornava resignada e instável. Obteve apenas uma rotina, nada mais. Nada mais. Adentrando e ligando o chuveiro, ajustando-o com pressa na temperatura ideal à sensação do dia e, então, despindo-se com tímido desengonçar, deixou que o cantar dos pássaros a embebedasse com a melancolia da existência: uma chuva chorosa que ameaça findar e permanece pululando na calçada. O mesmo pássaro que lhe propusera som aos ouvidos desde jovem pousado na mesma árvore e com a mesma trilha sonora. A trilha sonora de sua ignóbil biografia.
Não prestou atenção na parte primeira que permitiu sentir o toque da água que escorria do chuveiro rapidamente. Morna como os velhos banhos de banheira, porém não tão alegres e indiferentes. Carentes de patos amarelos e sabonetes moldados por figuras infantis com cheiro de cereja. Indiferença varia conforme a época. A indiferença de outrora será sempre mais bela que a de hoje e menos suportável quanto a de amanhã. É como o talento que, se deveras sugado, finda e torna-se triste e insuficiente como o suco de uma laranja já espremida à força. Enquanto massageava o cabelo com o shampoo roxo planilhava os pensamentos e reorganizava as ideias. Às vezes, quando não se importava, apenas observava as gotas que se jogavam contra o vidro e o sutil amanhecer na janela. O sol, ao raiar, trazia a dor. Passando com pressa para o condicionador ela já havia decorado as próximas horas com o ímpeto de findá-las. Assim, prematuramente, como a flor que desabrocha e é arrancada da terra.
O dia clareia e o barulho do secador é interrompido pelo desejo irrefreável de observar a tez branca no espelho. É branca como a pérola que edifica o caráter dentro da concha. Os olhos brilham como duas esmeraldas na noite e no dia. Madeixas secas, roupão abandonado. Corre em direção ao quarto, no entanto hesita ao olhar o relógio. Geralmente marca sete horas da manhã, contudo marcava quinze para as sete. Obteve quinze minutos de descanso. Quinze minutos para melhor observar as pintas perdidas que contrastavam com a branquidão da pele. Encarou-se uma, duas, três e até cem vezes diante do espelho antes de recordar-se de que, na cozinha, alguém a esperava. Dado este conhecimento, os músculos da face relaxaram e os olhos clarearam. Brotou no jardim da casa o meio sorriso de quem pergunta por perguntar ou fala por falar. Pelo simples prazer de abrir a boca e proferir qualquer palavra que proporcione a mais peculiar reação em outrem.
Quem a esperava não só acompanhara o levantar da cama e o hesitar do relógio. Tal criatura era incomparavelmente especial a ponto de preparar o café da manhã espontaneamente, sem cobranças e com um sorriso no rosto. Um sorriso que transpassava qualquer ficha organizada nos pensamentos e empurrava a vontade de viver mais para frente do que para trás. Todo o tempo anterior trancou-se num baú dando lugar ao desejo de que manhã, tarde e noite evaporassem calados ao encontro das seis horas da tarde, onde o café da manhã seria repetido com o mesmo sol se escondendo e os mesmos pássaros buscando um galho para repousar. Ali, sentadas, apreciariam o espetáculo como em todos os outros dias. Era-lhes suficiente.
Não era a felicidade ou a eternidade uma de suas quimeras, visto que a morte bebia do café ao lado das duas semanalmente, anunciando sua chegada cada vez mais próxima e incumbindo as duas a forjar da companhia o mais belo tesouro. Era apenas a coragem de carregar mais um pacote de acontecimentos indesejáveis até a ponte das horas para finalmente o afundar no lago desconhecido do esquecimento. Era assim como as ondas que batem na pedra e retornam ao mar sem se importar em bater novamente. Assim, quietas. Assim, caladas.

Lígia Portela Schipper; domingo, 03 de outubro de 2010