quarta-feira, 20 de outubro de 2010

- Por que você veio para cá? Quero dizer, você sempre quis se livrar de tudo isso! Houve sempre a fagulha insignificante de vida que despertou em ti o interesse de aniquilar toda e qualquer incerteza como esta. Este nicho de pessoas que desagradam e criam novas situações das quais aspirava desviar. O desejo irremediável de abandonar e abandonar-se. A liberdade e a solidão. Realmente não entendo.

- Acontece que acordei uma manhã, olhei para os lados e senti falta de mim mesma. Foi então que percebi a distância entre liberdade e privação. Você priva-se. Eu liberto-me.

L.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Liberté

Eu quero o meu cantinho. 

O canto, mesmo apertado, onde eu possa pintar as paredes da cor da minha alma e oferecer aos poucos convidados o conforto da poltrona macia que afunda como areia movediça. As quatro paredes onde os sussurros não são ouvidos e os olhares perdem-se. Porque eu não importo-me com a grandeza dos espaços sobrando ou dos custos a cobrir. O cubículo onde, mesmo longe daquilo que chamei de lar, poderei sentir ao meu lado aqueles que amo. Quer mortos ou vivos. Sentada na varanda, ouvirei a melodia escolhida mesmo com o barulho dos carros porque, em minha consciência, haverá serenidade. Das janelas o mundo e, afora, a vida. Um céu particular no meio da calçada. Invasões? Apenas as minhas e ao meu modo. A cama, a mesa, as folhas e as canetas, os objetos peculiares ou não, cada fibra do meu corpo espalhada por cadeiras e livros. As tortas e os suplícios. Embora ainda fossem existir as mazelas, existiria a minha solidão. A completa, não a forjada. E então, sentada, eu desdenharia de tudo isto porque é dessa maneira que se faz e é assim que me tornaria livre.


Lígia Portela Schipper; sábado, 16 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Saudades da minha infância... 

Ela tinha um gosto tão bom. Gosto de torta de amoras. Torta de cereja. Sweetie pie. Sabores diferentes de tortas que jamais provei.

Auto (in) suficiência

Às 06h15min Velvet Underground iniciou o melódico som provocando o movimento independente das pálpebras na garota deitada. As cobertas enroladas eram preguiçosamente tocadas e puxadas. Como a corda que sufoca o condenado na forca, os montes felpudos de veludo e nylon estagnavam as forças matinais da jovem que despertara. Muito mais enrolada que a coberta estava sua vida.

Zonza pelo barulho inesperado, cambaleou até o banheiro para o costumeiro banho. Traçara uma rotina com o intuito de prover mais dos dias. Infelizmente obteve apenas a maior absorção daquilo que a tornava resignada e instável. Obteve apenas uma rotina, nada mais. Nada mais. Adentrando e ligando o chuveiro, ajustando-o com pressa na temperatura ideal à sensação do dia e, então, despindo-se com tímido desengonçar, deixou que o cantar dos pássaros a embebedasse com a melancolia da existência: uma chuva chorosa que ameaça findar e permanece pululando na calçada. O mesmo pássaro que lhe propusera som aos ouvidos desde jovem pousado na mesma árvore e com a mesma trilha sonora. A trilha sonora de sua ignóbil biografia.
Não prestou atenção na parte primeira que permitiu sentir o toque da água que escorria do chuveiro rapidamente. Morna como os velhos banhos de banheira, porém não tão alegres e indiferentes. Carentes de patos amarelos e sabonetes moldados por figuras infantis com cheiro de cereja. Indiferença varia conforme a época. A indiferença de outrora será sempre mais bela que a de hoje e menos suportável quanto a de amanhã. É como o talento que, se deveras sugado, finda e torna-se triste e insuficiente como o suco de uma laranja já espremida à força. Enquanto massageava o cabelo com o shampoo roxo planilhava os pensamentos e reorganizava as ideias. Às vezes, quando não se importava, apenas observava as gotas que se jogavam contra o vidro e o sutil amanhecer na janela. O sol, ao raiar, trazia a dor. Passando com pressa para o condicionador ela já havia decorado as próximas horas com o ímpeto de findá-las. Assim, prematuramente, como a flor que desabrocha e é arrancada da terra.
O dia clareia e o barulho do secador é interrompido pelo desejo irrefreável de observar a tez branca no espelho. É branca como a pérola que edifica o caráter dentro da concha. Os olhos brilham como duas esmeraldas na noite e no dia. Madeixas secas, roupão abandonado. Corre em direção ao quarto, no entanto hesita ao olhar o relógio. Geralmente marca sete horas da manhã, contudo marcava quinze para as sete. Obteve quinze minutos de descanso. Quinze minutos para melhor observar as pintas perdidas que contrastavam com a branquidão da pele. Encarou-se uma, duas, três e até cem vezes diante do espelho antes de recordar-se de que, na cozinha, alguém a esperava. Dado este conhecimento, os músculos da face relaxaram e os olhos clarearam. Brotou no jardim da casa o meio sorriso de quem pergunta por perguntar ou fala por falar. Pelo simples prazer de abrir a boca e proferir qualquer palavra que proporcione a mais peculiar reação em outrem.
Quem a esperava não só acompanhara o levantar da cama e o hesitar do relógio. Tal criatura era incomparavelmente especial a ponto de preparar o café da manhã espontaneamente, sem cobranças e com um sorriso no rosto. Um sorriso que transpassava qualquer ficha organizada nos pensamentos e empurrava a vontade de viver mais para frente do que para trás. Todo o tempo anterior trancou-se num baú dando lugar ao desejo de que manhã, tarde e noite evaporassem calados ao encontro das seis horas da tarde, onde o café da manhã seria repetido com o mesmo sol se escondendo e os mesmos pássaros buscando um galho para repousar. Ali, sentadas, apreciariam o espetáculo como em todos os outros dias. Era-lhes suficiente.
Não era a felicidade ou a eternidade uma de suas quimeras, visto que a morte bebia do café ao lado das duas semanalmente, anunciando sua chegada cada vez mais próxima e incumbindo as duas a forjar da companhia o mais belo tesouro. Era apenas a coragem de carregar mais um pacote de acontecimentos indesejáveis até a ponte das horas para finalmente o afundar no lago desconhecido do esquecimento. Era assim como as ondas que batem na pedra e retornam ao mar sem se importar em bater novamente. Assim, quietas. Assim, caladas.

Lígia Portela Schipper; domingo, 03 de outubro de 2010