quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Primavera

Olho no olho, nariz com nariz. Os passos lentos confundiam-se com a primavera nas calçadas. A paisagem estava tão bela quanto o momento: árvores, outrora desprovidas de cor, coloriam de roxo, amarelo e rosa a cidade pretensiosa. Giros e mais giros ao lado dos dois. Ambos emergidos em um mundo particular do qual não desejavam sair. Há muito passaram pelos devaneios duvidosos da paixão e, agora, desfrutavam da conquista sem proferir desavenças. Nada de juras ou injúrias. Apenas os dois, calados, simples, ali, prestes a sentar na relva. A peculiaridade da sensação é livre de perífrase. Afora desilusões e realismos, futilidades e recessões do toque, mesmo que evaporando sonhos e remando contra a maré do tempo que sobe rápida e traz à superfície medos e dedicações, brigas, afastamentos, contradições ainda mais expressivas e fadigas da existência mórbida em sua essência, amavam-se. Olho no olho, nariz com nariz. Amanhecera. Nada além do sabiá na laranjeira com seu canto - enfim - feliz. 


Lígia Portela Schipper; quinta-feira, 23 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

O Delírio - Trecho de Valentina

Ninfos, elfos e liras estrelavam no céu azul claro com as pérolas nuvens movendo-se de norte a sul. Abaixo, Valentina estava deitada no campo que percorrera tantos sonhos anteriores.

Escorregou em qualquer pedra musgo e caiu esmagando tulipas e petúnias. Pôde observar a relva molhada que de súbito fez brotar grandes árvores primaveris, frutíferas como jabuticabas, macieiras e cerejeiras. A mata borrou-se de escuro verde e imponentes salgueiros lhe obscureceram o raiar do sol. Salgueiros eram a forma que Gabriel tomara em suas memórias. A saudade da pura amizade recobriu cada gota d'água que do céu caía em um grande e luminoso lago que a convidava para dançar no límpido cristal de sua profundidade. Lembrou-se das sereias que quando conquistavam os pescadores os afogavam nos rios ao encontro de Poseidon.

A escuridão alegrou-se e alegrou seus olhos, iluminando as entranhas da floresta e construindo palácios ornamentados de marzipãs e madre pérolas como que um reino erguido para contemplar a beleza do líquido divino. Mimosas pétalas de rosa  despendiam-se do céu até o piso de açúcar em que, agora, Valentina esticava-se vestida de longos tecidos de caxemira. Ao tocar o chão, cada flor tornava-se escura como o carvão e subia novamente como pó. Tudo impenetrável pela fortaleza de espinhos que rodeavam os castelos. No teto, pintadas estavam as mais belas imagens que representavam as três épocas de sua vida que, rapidamente, ressuscitavam em seus olhos. Porém, aquilo se destruiu e as construções do castelo desafiaram a gravidade direcionando-se acima dos montes, efígies e rodas as cores e coisas do universo.

O doce do chão diluiu-se com a água do naufrágio em que agora afundava. O grande navio aparentava ser o mais forte e imbatível de todos, mas ancorava a cada centímetro que Tina era absorvida pelas águas. Desejou morrer, porém o mar desaparecera. Voltou a íris novamente para o clarão silencioso das águas do pequeno Nilo e na outra margem a sombra turva de uma silhueta masculina fez renascer sua curiosidade. Aproximou-se da margem do rio desejando clarear a visão e identificar a instigante figura. Não se deu por vencida e ainda mais adentro dois olhos verdes identificou. Com a água na cintura, um pouco do nariz e pela garganta, reconheceu-o. Gabriel a olhava vagamente como se ela fosse um pequeno peixe regressando ao mar. Num súbito, nadou até o meio do lago enquanto seu amigo permanecia friamente imóvel. Por entre as ondulações tudo dissipou. O orvalho manchou as nuvens e apagou o céu. Abaixo da água, Valentina tentou gritar. As bolhas acima morreram e então sorriu de maneira tal que jamais sorrira anteriormente. 

Da mentira até a realidade; fim do descanso. Uma forte dor de cabeça e logo a enfermeira foi conferir a paciente do quarto 401.

- Bem vinda de volta à vida! - saudou à Valentina com expressiva ironia. - A senhorita Schnorr esteve em coma durante duas semanas e...

"Duas semanas. Duas semanas!" - pensou Tina. Era mais que tudo o que não provara. Lamentou. Trocar o mel pelo limão era o mais doloroso contraste possível. "Eu poderia dormir por mil anos, mil anos...".

Lígia P. Schipper.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mediocridades que pioram a sua vida.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Mais uma manhã de batalha e os olhares fatigados engrandeciam a cena no limiar da guerra. Pouco faltava para que seu término ocorresse, mas aos que ali sangravam em honra ou desonra ao mérito, o badalar das horas e a posição solar eram indiferentes para com a eternidade de cada combate.

Nos ideais corrompidos havia a quimera reconstrutora dos pilares explodidos na juventude. Não me refiro aos burocratas que renascem das cinzas como a fênix devido aos bons costumes. Aponto aos que ofereciam a mão nas ruas em troca de algumas moedas ou sentiam-se humilhados por criaturas sem valor. Baixar a cabeça para pessoas baixas é tão doloroso quanto suportar a dor daquilo que - ao contrário do que muitos pensam - não era inalcançável, no entanto inconquistado pela vida. Certos bons tornam-se maus devido ao meio. Assim é com a moral que se perde para os pormenores do modo. As causas sucumbiam na contradição da serenidade. Para alguns, todas as mortes seriam de grande valor ao mundo. Aparenta que, sempre em guerra, os corretos são os vencedores - mesmo que sem justificativa além da força bélica superior e das possíveis estratagemas que levam ao embate final e, por fim, ganho -. "Jamais vi tantos homens sendo desperdiçados", divagavam centenas de pacientes à espera do diagnóstico final. Deuses e Afrodites bebiam o rubro negro do coração paralisante. Defende-se todo o tipo de coisa e, acima de todas elas, as diferenças. O que nos une torna-se irrelevante. Nada mais nos liga além de um método de vida implantado durante os séculos e tido como viável e imutável. Uma pena. Uma lástima para todos, exceto para os que limitam o tamanho de seus pensamentos a certas pretensões. A história prova e o futuro provará as inconsequências dos eventos que irão reiterar o sofrimento e jamais aniquilar o perjúrio. Os resultados são apenas um polo idêntico a outro, criando um caos que se repete e jamais finda. Além de qualquer limitação do saber ou exigência do mercado, uma única visão turva do desenrolar da época esmagava preocupações diárias e comodismos.

As bandeiras erguiam-se nos montes e as fotografias, geradoras das memórias que preencheriam livros e filmes, eram sutilmente manipuladas. Tudo se tornava pequeníssimo se comparado ao poder. Bravamente os soldados corriam em direção à morte. De homens a heróis sem vida. Em outro dia, talvez, surgiria a paz que jamais provariam.

Lígia P. Schipper; terça-feira, 14 de setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

If I was young, I'd flee this town, I'd bury my dreams underground, as did I, we drink to die, we drink tonight ♪

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Valentina II - Trecho

(...) O gélido vento assolou o fronte de Valentina. Ela havia sintetizado um pouco do que pensava sobre algo que experimentara uma vez. Algo que sequer iniciara. Não é a experiência que torna as coisas importantes e as pessoas sábias, mas aquilo que se absorve dela; tanto certezas quanto as inevitáveis dúvidas. Era triste enxergar, antigamente, uma cerca triste por onde só passavam suas mãos. Recobrou a consciência e despediu-se de Gabriel.

Existe aquilo que somos e aquilo a que somos induzidos. Valentina era uma sequência perfeita de induções. Projetava sua imagem a cada ambiente e, como camaleão, modificava sua cor de acordo com o exterior. Não afetava seu verdadeiro ser, mas confundia as indubitáveis junções de opinião que os poucos com que falava deduziam. Era divertido. No trabalho de que agora estava afastada, incorporava os mais insanos personagens para cada ocasião. Cada dia era um novo espetáculo de dissabores. Não era um transtorno de personalidade, visto que havia consciência destes conflitos. Era uma espécie de escudo eficaz que confunde o adversário e conserva o corpo. Era mais medo que raiva o sentimento dominador de seus dias. Receio de apodrecer na mesma cidade, não levantar-se da cadeira onde esperava a mudança de sua vida - ignorando os ativos que saem em busca da mesma -, o medo de não ter mais medos e o medo de tê-los. Suas mencionáveis cóleras serviam de pilastra para seu castelo ou mausoléu de teias de aranhas famintas por formigas  tornando-a um poço rubro negro de dúvidas e azedumes incessantes na cruzada para os verdadeiramente interessantes que se perdiam no dia-a-dia do caótico mundo. Pena que não se apanha formigas com vinagre: apanha-se com açúcar. Havia já cansado de ver a mentira nas ruas, os ósculos abandonados por vinte reais nas esquinas e os opúsculos refletirem insanidades adolescentes de desejo incumbido por uma sociedade doentia. O hospício global onde todos eram pacientes incuráveis, inclusive os que sabiam de sua condição. Devaneios e precipitações aguardavam o dia seguinte. Às seis horas foi lambida pela gata albina.

- Você precisa de um nome. Sara será seu nome. - cochichou para a gata que, faceira, parecia diluir as palavras.

A felina, agora, tinha nome. Valentina apanhou as chaves e levou-a ao parque. Incrível como Sara corria para as pombas assustando-as e apavorando os transeuntes. Parecia uma criança. Tina pouca cogitara ter filhos, no entanto aquela cena cercava-a de certa intimidade incomum. Sentou-se no banco e desabrochou outro dia inocentemente perdido. (...)