quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um Oceano de Silêncio


O esquecimento é a morfina da alma. 
 Ela veio como de costume, apoiou-se no beiral da janela e olhou por entre as cortinas desenhadas pelo mar e pelos marujos reis do oceano. Vi os olhos marejados que lhe brilhavam a face. A luz do sol refletiu em seus cabelos e edificou o momento. Direcionei-me ao que antes fazia e retomei minhas atividades. Sentia sua presença. Não mais a vi quando olhei para trás. Essa sensação de perda repentina me apavora todos os dias.
Para onde fores tu? O mar que tanto um dia te agradou agora é tua nova casa e esqueceu-se de que há em terra firme quem chore por ti. Não há quem culpar nesta ocasião. Todos são vítimas das coisas que deixam de fazer e das memórias que teimam em guardar. Sei que talvez sinta saudades deste mundo, embora tão triste sem tua presença e mesmo triste com ela, resguarda aqueles que, embora te tenham causado sofrimento, amam-te. A luz dos teus olhos permanece intacta em cada canto da casa e em cada suspiro da rua. As esquinas têm seu nome como placa e as avenidas gritam os teus passos. Você foi marcada eternamente em cada simplicidade que gerava um sorriso alegre em teus lábios. Tu, que tanto amparou os conhecidos e inimigos não teve, foste condenada a se ir assim, como numa fuga, sem deixar nada mais que uma bolsa com teus pertences e a roupa ao lado da cama para usar no trabalho.
Talvez seja verdade o mais clichê consolo que os muitos desejaram um dia. Há de estar num pequeno barco em meio ao oceano que tanto amavas. Maruja dos mares cujo reino é tão profundo e distante de mim. Não gosto tanto quanto tu gostavas dos grandes mundos aquáticos, porém, após tantos sacrifícios teus, por que deveria eu ter o direito de gostar? Partilharei contigo meus temores e aceitarei teus cuidados como antes nunca fiz. A lágrima dimana da saudade que veio atormentar-me tão repentinamente quanto tua ida. Sinto pelos equívocos que cometo em nome de meu bem-estar, mas sinto mais ainda por cogitar tua presença a observar-me tão indubitavelmente ferida e resignada. Descanse. Num dia estávamos à espera de um novo mundo e noutro o nosso mundo findou-se. Minha falta de compreensão tornou-se tragédia. A tragédia trouxe-me algumas verdades e alguns enganos. Permaneço eternamente esperando sentada pelo dia em que também poderei navegar nestes mares ao teu lado, com teu sorriso, não por muito tempo porque a eternidade não nos basta e sim pelo necessário que é a vida. Será que um dia levantar-me-ei? Ou será também sempre presente essa eterna sensação de não sentir nada? A morte, quando quer, vem rapidinho, como se nunca a vida houvesse existido.
Rainha dos mares que me trouxe a saudade desconhecida. Vinde em minha busca e levai-me – pois já não consigo esperar – para junto de tuas ondas iluminadas pelo pôr-do-sol. Posso até já ver-te por entre as ondas com teu sorriso grande acenando para mim. Certas coisas simplesmente não findam. Tive saudades...
Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 11 de agosto de 2010