sábado, 7 de agosto de 2010

Tempos De Violência


- Hoje sua vida vai mudar – disse a cartomante.
- Vai mesmo?
- Vai sim. Hoje você vai encontrar um homem rico em um belo carro que irá conduzir sua vida para outro rumo. Este homem não sabe da sua existência, mas haverá uma confusão em seus pensamentos que o levará até você. Boa sorte, filho.
Saí do apartamento escuro da mulher que hipoteticamente via o futuro numa bola de cristal e analisei minha situação podendo dar conta da miséria espiritual que me tomava. “Ir até a cartomante, quem diria”, o desespero era tamanho que eu não poderia rejeitar o que fosse. O beco a que me dirigia era o pior e mais perigoso da cidade, apenas naquela noite me parecia inofensivo diante das mazelas que me tomavam. Por um momento, pude ouvir a voz da cartomante rindo de suas próprias previsões.
Na calçada a água fazia brilhar cada pedra desencaixada enquanto os córregos estavam totalmente entupidos pela sujeira da classe baixa. Os restos humanos faziam parte do cenário com suas especulações que amedrontavam os passantes.
- Tem um real aí, senhor?
- Não, não tenho.
- Ah, qual é! O senhor tem!
- Desculpe, não tenho mesmo.
Seguir quando se clama por silêncio e precisar ouvir baixarias a respeito de seu caráter vindas de um pivete pedinte só piora quando um ser humano com casaco longo e esfarrapado, agarrado em seu mais precioso bem, afana as moscas e canta a canção dos delírios alcoólicos mais burlescos: “nós estamos todos bêbados, bêbados de cair” e então tropeça em seu pé e cai no meio fio da calçada. Com a garrafa de vodka quebrada e lamentando não o nariz que sangra, mas o líquido transparente que escorre pelas mãos cortadas e fedorentas. Nas esquinas, a pintura borrada das mulheres confunde nossas certezas e questiona nossa moral. “É, ou não é?”- penso. É. Pior que observar homens fantasiados oferecendo o corpo e dividindo espaço com as já tão acostumadas fêmeas do ramo é ser abordado por uma jovem de 12 anos. Ela usava uma saia curta e preta acompanhada de uma dessas blusas tomara-que-caia cor de rosa, combinando com o grande salto alto que lhe dava uns dez centímetros a mais. Aqueles dez centímetros de altura contrastavam com a fragilidade do corpo de uma criança e alma prostituída de uma mulher.
- Hoje tá barato, senhor, vai querer? – disse a menina sorrindo e se aproximando, fazendo-me reparar nos grandes olhos negros e vazios que habitavam sua face. Mascando um chiclete e com um de seus dentes borrados com o batom rosa fosforescente que utilizava. A sombra da garota era rosa, tudo era rosa, menos seu mundo. Eu não conseguia imaginá-la brincando com uma boneca nas mãos, acho que o motivo era ela ser uma boneca deformada na minha frente. Uma destas bonecas de que as outras crianças arrancam as pernas e pintam os cabelos, emitindo o que sabem sobre sexo para os bonecos masculinos e garantindo sua puberdade. Olhei-a e ignorei suas palavras, segui em frente, hesitei por um instante e virei para trás. Ela ainda me fitava e eu vi no lugar daquele corpo padecendo a imagem de minha filha. Ela, ao contrário, estava em casa sonhando com qualquer coisa parecida com que ouvira sobre A Bela Adormecida ou A Bela e a Fera. Eram tempos difíceis aqueles.
Adiante, tive minutos individuais para lamentar minha decadência. Infelizmente, nada do que havia em meu caminho me aflitava mais do que a chance que havia de eu ser demitido. “Mato-me” – pensei. Não suportaria a rejeição de meus progenitores por tão novo e já pai, perder o único trabalho que me oportunizava uma vida digna. Sempre soube que a preguiça dominava meu corpo, porém este conhecimento jamais me fez insistir ou resolver a maioria das coisas ruins que me ocorriam. Pelo contrário, eu preferia sentar e esperar que qualquer milagre mudasse minha condição. Aquele era o ápice da covardia e eu não poderia conviver com ele. Em minha imaginação já podia ouvir as palavras e ver as expressões de rejeição vindas de todos os que alegaram querer meu bem. A cobrança era evidente e, se as coisas daquela maneira ficassem, daria cabo de mim mesmo, afinal, o que me restara fora um punhado de problemas, um corpo flatulento e uma alma tão abusada quanto a dos que ali se vendiam.
Dobrando uma das esquinas cheias de adolescentes fervorosos que injetavam suas drogas e riam da luz que o poste oferecia, vi o modelo novo de um carro de luxo. Aquele carro – bem - não me recordo o nome, era prata com o símbolo a frente do automóvel que custava mais que tudo o que já havia conseguido. “É um belo carro, daria muita coisa por um carro desses”. É vergonhoso pensar que mesmo nos momentos mais dificultosos de nossa vida deixamo-nos levar por desejos supérfluos e desgraçados como a posse de um veículo que apenas nos traria mais gastos e um pouco de falsidade. O carro vinha lentamente e com o farol alto. Dois tiros; foi tudo o que ouvi.
A lua deu lugar ao sol, o orvalho tocou o chão e a poça rubra de sangue secou. As pessoas despertaram, se arrumaram e tomaram o ônibus para mais um dia de trabalho. O cotidiano não fora afetado. Tudo o que sobrou foi minha carcaça intrépida sem vida, sem alma, sem amor.

Lígia Portela Schipper; sexta-feira, 06 de agosto de 2010-08-06