domingo, 15 de agosto de 2010

Seção De Bebidas

- Alô, Olívia, tô na seção de bebidas. Qual vinho tu quer?
- Que vinho, Júlio? Você ficou louco? Nós não vamos comprar vinho.
- Tá, então qual a marca da água que tu queria?
- Conjuga esse verbo direito, criatura! Eu quero a do rótulo azul, é fácil de achar.
- Esquece o verbo! Não tem do rótulo azul aqui. Que vinho tu quer? Tem o Chardonnay que a gente gostava de comprar. Ele continua igualzinho, não mudou sequer a cortiça.
- Júlio! Não é pra comprar vinho algum. O Chardonnay é de quando nós tínhamos dinheiro pra ele. Esquece.
- Poxa, Olívia, eu gostava tanto desse vinho, lembra? Era o vinho com as alcachofras toda a noite na nossa sala, iluminados pela lareira...
- Júlio, a mordomia e a lareira foram vendidas, agora nós não temos banca pra isso. Finda com essa mania de grandeza. Eu estou pagando essas compras e não quero te ver chegando com vinho algum aqui em casa, entendeu?
- Ah, ótimo, então tá bom, eu entendi, não precisa vir com a parte de que eu sou um acabado que perdeu o emprego, mau marido e uma grande decepção pra você. Sei que fui um erro e blá blá blá.
- Júlio, sai da seção de vinhos, agora.
- Não, não, espera aí. As pessoas estão me olhando aqui. Sim, pessoal, estou tendo uma crise conjugal via celular. Alguém se incomoda?
- Júlio, pára...
- Eu só queria um vinhozinho, amor.
- Tá, Júlio, pega o vinho e vem, deixa de ser fiasquento.
- É pelos velhos e bons tempos, doçura. Eu vou pegar as alcachofras também.
- Júlio, chega! Pega a água e vem pra casa.
- Tá bom, tá bom... 

Lígia Portela Schipper; domingo, 15 de agosto de 2010.