sábado, 7 de agosto de 2010

O Crime Da Mártir


 “Meu primeiro grande erro foi nascer, após isso, realizei sucessivos equívocos que  o confirmaram.”
Na mordaz cidade os transeuntes resguardavam suas emoções com esmero e cuidado enquanto pisavam nas íngremes calçadas do pacato lugar. Dentre aqueles que sorrateiramente carregavam suas vidas nas costas havia uma moçoila tímida que observava cada movimento dos espectros andantes. Os pingentes da cidade lhe despertavam a curiosidade de uma criança e as divagações mais enredadas. Em sua mais pura simplicidade passava despercebida pela maioria dos que lhe cruzavam o caminho, entretanto, alguns – quando a notavam – fitavam-na ora com ardor, ora com indiferença. O céu transbordava uma chuva chorosa que coloria um sorriso em sua face.
Tentou escapar de casa consecutivas vezes até que com a bruma de uma manhã alcançou a estação de trem. Ignóbeis tentativas de fuga foram realizadas durante suas  pueris primeiras primaveras. Inócua, ludibriava as tentativas de seus pais para tecerem linhas de confiança entre seus olhos e os da menina. Aqueles olhos verdes ainda tornar-se-iam duas esmeraldas. Seus vícios eram os da saia xadrez e do sapato preto que jamais retirava do corpo. Cessaram as inúteis tentativas de evasão e a consonância carregou-a sobre as águas límpidas da mocidade.
Aos dezessete anos entrou em uma livraria da mesma maneira que adentrava seu quarto. Nas prateleiras os amontoados de obras misturavam-se entre aquelas que preenchiam folhas e as que apenas as rabiscavam. Seu olhar atento demorou a escolher uma das dezenas histórias até que a ajuda chegou. De repente, soube que havia acabado de platonizar um amor. Era uma das mais patéticas coisas que conhecia. Porém, inocentemente, projetou ali o ignoto. Logo, sua voz embargou e o teatro foi iniciado. Já não mais se calava. Agora, a confusa menina falava sem parar e construía uma de suas múltiplas personalidades inventadas, como se um presente de suas quimeras fosse entregue ao estranho. Por fim, a doce ilusão a levou para casa.
Na amargura da vida, entre as pinturas e as paisagens, jamais seria encarcerada por tão banais sentimentos. A existência lhe aguardava, haveria muito por realizar. “Sou solta, leve como a brisa da manhã, não se deve tentar me aprisionar com caixinhas de papel armadas”, pensou. Tudo é fugaz quando preenchido por utopias. Suas utopias retiraram o cartão de seu guarda-roupa e completaram o vazio de seus escritos. Quando findada, retornou à clausura por si mesma. Sem interesse e já então blasé, encontrou um velho amigo esquecido com o qual não queria mais partilhar suas vivências. Cedendo às convenções sociais mais ordinárias, iniciou um diálogo de natureza sombria que resultou no conflito de duas almas passadas unidas por uma presente coincidência.
- Sabe quais eram as nossas diferenças? – perguntou ela.
- Não sei, quais eram?
- Você tinha algumas coisas para aprender. Eu tinha algo a ensinar. E sabe qual era a outra?
- Não, não sei. – ele respondeu.
- Você É, eu não; e isto jamais sofrerá mutações.
O último de seus romances sequer iniciados foi findado por uma cerca triste por onde só passavam suas mãos. Tendo retido esperanças e permitido que o universo lhe sugasse cada desejo estagnou a moral e acolheu o desespero. “Eu poderia dormir por centenas de anos”. Nada lhe importava além da insana busca pelas quimeras que já havia enterrado.
Avançando para seus cinquenta anos, encontramos uma velha conhecida deitada em seu leito buscando qualquer paz para seu câncer. Rodeada de gente morta com palavras mortas, como assim definia toda aquela invariável gentarada no aposento em que se encontrava moribunda, conversou com a já esquecida filha sentada na ponta do colchão.
- Quem são essas pessoas, por que fingem ser o que não são só por me verem neste estado?
- Não sei mamãe, são amigos do papai.
- Pessoas mal lavadas. Pensam que os buracos que possuem na cabeça são aberturas para o mundo quando, em sua essência, foram feitos por cupins. O que eles têm é um apanhado de intenções, não de sentimentos. Eles têm medo do que são?
Percebendo a ojeriza de sua mãe, a já mulher que lhe saiu das entranhas abraçou-a levada por um impulso há muito dormente. O toque singelo que às uniu apavorou irremediavelmente a padecida senhora que dobrou sua infelicidade ao denotar o grande precipício que havia cavado entre ela e sua filha. Um simples gesto destruíra todas as armas que apontavam para sua garganta.
Duas semanas depois ela melhorou. Em sua sofreguidão, sabia que antes do amanhecer a escuridão era plena, mas que para ela o amanhecer era sempre de nuvens negras e derradeiros raios. “Creio que morrer seja abdicar de todo e qualquer sentimento. Talvez morrer seja nada sentir. Talvez eu tenha morrido. ”Desta vez seu marido estava em estado terminal. Suscetível aos meros convites do hábito ergueu pontes entre os gostos que havia abandonado e visitou um boteco qualquer. Indagada com ironia por um homem que a percebeu bebendo, respondeu:
- Você já viu a morte deitada em sua cama? Na cama onde você dividiu o espaço com aquele que um dia lhe foi estranho e conquistou sua confiança de forma inexplicável? Cale-se, você é uma vergonha.
Já em casa, o homem vil com quem casara chorava a vida e entristecia-se mais ainda com a culpa que sentia e a ausência de posição diante do que havia cometido.
- Eu devia me orgulhar de tudo o que fiz, no entanto o que fiz não foi orgulhoso. Corrói-me um rato no cérebro. Acabe com minhas lembranças, mate-me!
- Você pode se arrepender do que quiser, não existe essa de não-arrependimento e de orgulho por tudo o que se faz. Você pode se arrepender do que quiser e quando quiser. A vida não é tão breve quanto se diz, na verdade ela é longa demais. Quando eu era nova não fedia nem cheirava, nadinha. Hoje sou puro estrume. Sou a indecência e você, por também ser assim, deveria se conformar.
Um meio fácil de saudar a morte é ignorá-la. Não houve velório, não houve lágrima. A redenção veio com o tempo. A dor sucumbiu sua alma e seu corpo. Quantas foram as risíveis catástrofes, estirpes, os impostos, as castas, as doenças e risadas que lhe representaram? Quantas vezes debelou suas aflições pela proteção pessoal e terror ao acalanto dos próximos? Em seu sigilo eterno ouviu apenas os sussurros de sua lucidez. Acima de tudo, quantos foram os equívocos... ah, os equívocos. Seu primeiro grande crime foi acreditar. O segundo foi viver disso.  
Não teve medo de quem era. Teve medo do que parecia ser. Assim, despertou após anos de sono que lhe minguaram a respiração. Tateando no escuro da sala, acomodou-se na velha poltrona que adquirira quando mudou-se pela primeira vez na tentativa de sozinha cumprir suas promessas. Um vulto na janela transpassou magicamente a parede e em sua frente declarou que não delirava. Os olhos verdes cumprimentaram a criatura por trás do manto denso e, ao beijá-la no rosto, completou seu grande feito. O portão da casa bateu e no dia seguinte o sino badalava anunciando um velório solitário regado por uma chorosa chuva.                                                                

Morrer, enfim, é realizar o sonho
que todas as crianças têm...
O motivo? Só elas sabem muito bem:
Fugir... fugir de casa!
Mário Quintana.
Lígia Portela Schipper; retorno lamentável. Quinta-feira, 05 de agosto de 2010.