quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Castiçais e Brocais

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Castiçais e brocais na mesa. A lua cheia reluzia nos lagos sua plenitude e convidava os narcisos a afogarem-se em seu temeroso desconhecido. Tudo pronto. Os guardanapos vermelhos abaixo das taças de cristal à esquerda dos dois pratos elegantes que comprara para a ocasião. Em contraste com o rubro do pano, há na toalha o bege da face entalhado de folhas e flores douradas. A fina elegância esconde-se em cada gesto e desencadeia uma senda de aparências que não se esgota.
Apesar de todos os lucros que obteve no dia e dos empregados que demitiu: sente medo. O nervosismo assola seus pensamentos e torna seus movimentos o expressar de um patético desejo incontido. Um palhaço sem cor, poeta sem versos, sábio desmemoriado. Dobra e desdobra o guardanapo. Arruma-o na horizontal, na diagonal, tenta produzir um origami e conclui que é elegante demais para uma só noite. Serve-se um pouco do tinto vinho escolhido a dedo pelo maitrê da mais refinada casa de bebidas da cidade. O relógio aparenta lembrá-lo a cada instante que na mesma medida em que a garrafa se esvazia, o tempo se vai e com ele a esperança. Já passou meia hora e a tortura da espera o faz levantar, caminhar de um lado para o outro, verificar o relógio consecutivamente até que seus olhos cansem e borrem a imagem. Percorre o espaço, checa o celular, fala sozinho. No precipício de seu penar, agarrou-se às pompas e falsos risos.
Resolve, então, provar da comida. A entrada é um salmão cozido ao espumante rosé com ervas, uma delícia apreciada com lentidão. Mais dez minutos e então o prato principal: lombo de porco com favas. Saboreia-o depressa, como se ansioso por poder manter-se imóvel à espera da mulher que tanto lhe cativa. Por fim, de sobremesa, um bolo de ameixa com nozes. Tudo milimetricamente planejado para o jantar a dois que teimava em não se iniciar. De todo metódico, findo pelas estratagemas que renegou e ligado ao mundo exclusivamente pelos números e pelas computas que fez quando aprendeu a contar na escola, faculdade e por fim, no ofício, esqueceu-se de que certas equações resultam no zero, por mais grandiosas e complicadas que sejam. É claro que, como bom matemático, tentaria refazê-la inúmeras vezes buscando distintas respostas. Pobre homem. Sequer desconfiava da incerteza da existência e do grande abismo que havia entre as duas concepções.

Terminantemente, já cansado, lavou os pratos, secou os copos e entornou o vinho. Sozinho, mais uma vez, ele e seus cálculos mentais inúteis e desregrados. Foi quando notou o que sempre notava após os mesmos jantares mal sucedidos. Na parede esburacada e cinza havia apenas o relógio. Nada de janelas ou portas. A mesa, antes repleta de adornos, estava vazia. Permaneceria moribundo na umidade de seu cubículo. Que lembranças eram aquelas que lhe assombravam a memória com a tenra juventude de oportunidades? Sua companhia eram os vermes e a terra. Quem sabe no dia seguinte ela viesse? Estaria eternamente esperando. Em seu peito, silêncio. Acima da cova, sua lápide.
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                A vida é assim: a eterna espera morta daquilo que jamais virá. Um jantar a dois, em um.


Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 18 de agosto de 2010.