domingo, 6 de junho de 2010

The Wish List

Gosto de maçã, pêra, pêssego...

Sonhar, que bela palavra que habita nosso dicionário. Competindo com a profunda saudade, sonhar é a mais surreal e bela palavra que proferem nossos lábios. Sonhar acordado, desejar algo, idealizar as coisas e pessoas podem ser erros tão grandes quanto a falta de sonhos que acoberta nossas fraquezas com a possível maturidade.

Sonhos são demasiadamente importantes, fluindo de nossa mente e ideias, buscando linhas para tornarem-se concretos e sempre carregando a esperança de que a verdade vai além das mentiras e impossibilidades das quimeras. Nenhuma utopia é totalmente derrotada, seu fim é imprevisível, jamais se esvai. Sonhar é como manter a chama da lareira acesa ao padecer a lenha, como os olhos que se abrem ao despertar ou como as horas que, sorrateiras, carregam nossas vidas nos ombros. Sem tudo isso não há manhã, sorrisos e conforto. Há muito que o ato de sonhar foi vulgarizado. Certa vez, em seu âmago, fora o ato de imaginar aquilo que não necessariamente pode ocorrer. O medo da decepção não deve ser temor dos sonhos, sonhar não é ter os pés no chão, sonhar é deixar que a brisa nos carregue até o apogeu de nossas emoções. É preciso ser corajoso para sonhar, por mais que pareça mais fácil erguer muros em nossa existência buscando a frieza total. Isso é covardia.

Jamais tive o tão sufocante conceito de sonhos que as pessoas adquiriram devido ao senso de realidade que é pregado atualmente nas novas gerações. O real é essencial, realismo é essencial, porém, sonhar não deve ser o desejo movido pelo medo da frustração. Possuir fantasias será sempre o ato de menosprezar qualquer matéria para suspirar em meio ao que não é fidedigno. Finalidades são confundidas com sonhos todos os dias. Os objetivos, ao contrário do que muitos raciocinam, é que provocam a decepção se não alcançados. Os sonhos não. Estes, a partir do momento em que os criamos, deixam claro que não advirão porque, assim como todos os outros, nossa individualidade modifica cada característica de personalidade que aqueles que nos rodeiam possuem sem perceber. Esta mudança provoca a troca de sentidos e fatos perante o mundo, tornando-o único e existente apenas em sonho.

Os sonhos são irreais. Os objetivos são apenas fruto dos sonhos. Objetivos são como as bordas do bolo, devaneios são seu recheio. Jamais, em vida terrena, temos a qualidade de não confundir em palavras aquilo que é sonho e aquilo que é alvo. As metas, confundidas, são as metas mesmo quando às denominamos sonhos. Existem os desejos pessoais e impessoais. A ilusão pode ser massificada ou individualista. Sonhar é uma vida alternativa que construímos com base em nossas inseguranças e insatisfações, solidificadas por esperança e comodismo. O ingênuo egoísmo sustenta o sonho. Apesar de aparentemente perigoso, há em seu casticismo a magia do insustentável, do eterno, do imutável e impermeável.

Sua natureza suplanta o material, está livre dos mesquinhos e enganados. Sonhar, agora, é um ato de sobrevivência. Quem não sonha, não vive. Iludir-se é a melhor forma de habitar o mundo em que vivemos. Presentemente, sonhar é oxigênio nas horas solitárias em que nos pegamos olhando para o espelho e rindo. Nós, sonhadores, temos um legado eterno para representar. Tão autêntico legado provém de fantasias, o real provém do irreal e, sendo assim, é o que presenciamos dia-após-dia, com ou sem sonho, esperando apenas para ser relembrado.

Lígia Portela Schipper; domingo, 06 de julho de 2010