sábado, 26 de junho de 2010

Silenciux

Se algumas coisas são pesadas, porém não o suficiente para ancorar no esquecimento, pese-as mais. Antes do amanhecer haverá sempre a escuridão plena.

Senti vontade de escrever neste momento. Esta é uma de minhas raras vontades, pois sentir vontade é como relembrar-se de alguém há muito esquecido e, neste caso, jamais esqueci da escrita. É por este motivo que as palavras, conjunturas, erros e sintaxes desta dissertação devem ser relevados e, pelo bem estar de todos, compreendidos como o magnânimo suspiro da existência que invade meu ser.

Esse suspiro não é o de esperança ou coragem, mas sim o de cansaço. Tantos equívocos foram cometidos nos últimos meses... tantos acertos involuntários que iludiram-me com a paisagem turva da felicidade. Em busca de uma solução acabei por acatar mazelas aparentemente findas, no entanto de modos que definham minha energia e mente todos os dias. Na caminhada pelo esquecimento esqueci que algumas lembranças são de suma importância na formação do caráter de um ser e que as tentativas corroboram nossas decisões assertivas, tornando-nos possuidores de nossa própria - contudo mutável - verdade. Minhas verdades foram corrompidas pelo espectro do passado que tanto zelou por seus momentos importunos. Cansei-me, então, da fadiga e do descaso: tentei. Tentei de diversificadas formas manter meus sentimentos e condutas acima de quimeras habituais. Foi assim que, em meio ao redemoinho de gente que me atordoava, descobri-me - invariavelmente - apaixonada. Não lhes digo que me apaixonei pelo olhar de um homem ou profundidade de uma arte. Apenas apaixonei-me e, sabendo que talvez fosse recíproco e temido, calei-me. Garanto-lhes que apaixonar-se é encontrar-se em estado súbito de espírito que acalenta a presença de determinando ser pensante e almeja o doce de alguns gestos. Acontece que as belezas todas possuem seus encantos para confundir nossas pacatas ideias.
É tão triste amar na covardia que feliz na sorte. A arte de ocultar é talvez tão boa e inútil quanto a do silêncio. Quando não está em nossas mãos o rumo de certos acontecimentos, as abrimos e deixamos escapar por entre os dedos as possibilidades antes vagas e invisíveis que habitavam as linhas de nossa palma. O esquecimento não é tarefa fácil. É árduo o período de desdém a que nos submetemos para conservar nossa sucinta existência. Ter covardia para concretizar as palavras e a fugacidade do desejo é o mesmo que não fazer valer o que se sente. Por um tempo pode-se aceitar tal conduta. Depois, quando se exacerba o tempo, vê-se que se não ocorreu foi porque não forte o suficiente era para concretizar-se. Tão banal; tão clichê. Quando o medo de um acaba por tornar-se o medo de outro, o cessar torna-se prematuro e o romance sequer inicia.

Então, o que era forte desmancha-se e a cumplicidade se esvai. Restam as sensações que jamais foram sentidas e as memórias jamais vividas. Resta, no lugar do sopro da existência, o da ausência. É um fim comum a ser presenciado e vivenciado. Afinal, por que fui imaginar que haveria história?

Liberté.


Lígia Portela Schipper; sábado, 26 de junho de 2010.