domingo, 27 de junho de 2010

Retrato

Mais uma repostagem...

A magnificência da beleza transpõe os limites da razão de forma grandiosa e ao mesmo tempo inócua, ignóbil. Ao contrário da segunda, esta se esvai e como lembrança deixa apenas as imagens de profundidade exorbitante e coloquial.

Como uma foto abandonada na linha imaginária da história, a imagem não resiste ao tempo e deixa que as manchas amarelas instalem-se sorrateiramente em sua tinta preta e branca. Os riscos de dobrada, amassada e jogada ao chão exalam velhice, remorso e comodismo: a era em que a fotografia disputava as mais belas molduras da sala já passara, entretanto as cicatrizes furtivas não se findaram, pois continuaram vivas e pulsantes. Ao tocá-las rasgam-se mais profundamente, dando continuidade a um ciclo infinito de recordações e toques que aquela cena congelada resguardou durante toda sua existência ornamental. É na profundidade do simplório que o vasto poder encontra-se.

Por fim, o retrato dá boas vindas ao último raio de sol que irá iluminar sua face descolorida. Dentre toda essa aquarela sem cor, há no verso da suntuosa efígie uma lembrança: “dos dias mais felizes da minha vida: Eu.”

Foi-se a beleza... foi-se o retrato.


Lígia Portela Schipper; quinta-feira, 15 de outubro de 2009.