quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Suspiro da Rosa


Este é comum a todos; piegas.
 
Como a rosa flamejante, lá estavam as madeixas da bem delineada moça. Não lhe atribua traços largos e carnudos, pois tal donzela não carregava em sua tez a beleza contemporânea tão endeusada. Seus olhos refletiam o mais pueril das margaridas e sua pele a maciez do veludo. Os cabelos eram de seda pura, cacheados, adornando seu pálido rosto. O corpo era longo e magro, alguns a tinham por pele e osso, outros por magnífica representação da suavidade, colírio para os olhos e problemas para si.

Apesar da jovialidade e graciosidade, havia em seu silêncio interior o eco de suas súplicas sussurradas aos ouvidos do planeta. Não era das mais afortunadas no dinheiro nem no amor, as amizades raramente se prolongavam e o contato com os familiares há muito fora perdido. Entretanto, a simpatia que possuía com alguns de seus "escolhidos" era tamanha a ponto de confundir os que a rodeavam. Durante toda sua vida, trocou o que lhe tão bem fazia pelo incerto, quem sabe até derradeiro - devido aos trágicos fins de que pôde participar - transformando sua beleza em puro adorno, nada além de poesia para os amantes platônicos e adoradores secretos. O imaginário de sua mente criou em seu subconsciente a sensação e os sentimentos de vazio, equívoco e medo. Aquilo que um dia fora tão certo quanto sua imagem na água límpida repentinamente era invadido pelo túrgido das tempestades. Talvez ela quisesse sofrer; talvez ela devesse.

Diariamente as questões insípidas à trivialidade humana corroboravam a sensação de que o mais fugaz dos olhares era a tênue forma de expressão da felicidade no mausoléu em que erguiam seus temores e anseios. Seus argumentos levaram-na a crer que é uma falha humana buscar sempre o entendimento das coisas, sem saber que, em grande parte das vezes, o desentendimento é que deveria chamar a atenção. Para ela, deveríamos aprender a desaprender. Desaprender aquilo em que acreditamos e nos foi negado, desaprender as horas e as dores, o efêmero, o que nunca se concretizou e, por fim, esquecer-nos. Negando nossa própria existência teríamos a paz interior que ela tanto buscava. 

Procurava, incessantemente, respostas em livros que não lhe dariam nada mais que pensamentos banais e vultos de sabedoria. Sua história, no recanto de seu apartamento, jamais encantou os cegos e fez ouvir os surdos. Existia para si e para seu trabalho. Vivia da incansável espera. A expectativa em que havia mergulhado provinha dos lagos mais poluídos, das mentes mais frágeis e dos encantos mais transitórios. Sua inquietude para com a humanidade demorou a acalmar-se para que, no lugar da busca, encontrasse-a tocando sua campainha. Rotineiramente cobrou do tempo as horas, do amor os prazeres, das mágoas a cura e de si mesma, sua alma. Dos dias, apenas teceu suas mazelas e desdenhou do alvorecer. Esqueceu-se, durante tanto tempo, de que agia mais por impulso inconsciente e esculpiu uma vida sem preenchimento. Uma árvore oca de frutos amargos. 

Ali estava a moça após tantos invernos, carregando ainda sua elegante aparência, de pernas para o ar, sentada no precipício de seu fenecimento. Enquanto a brisa lhe acariciava as maçãs da face, descobriu que em busca de tanto desapego acabou por apegar-se ao hábito, tornando-o vício. Deu conta de que o tempo, as horas e os dias não eram um privilégio de todos, mas apenas dos que bom proveito faziam deles, pois independentemente de seu círculo social, conquista acadêmica e afetividades o mundo lhes pertencia. Pôde, enfim, aceitar que as semanas não eram um direito seu; algo que não podia ser tomado de suas mãos e findado. Aceitou sua pequenez, não se impôs acima das certezas e das dúvidas. Não era nenhuma heroína detentora da altivez do sábio e agilidade do jovem. Soube, após redirecionar sua mão para si mesma no lugar de apontar aos outros, que cada dia era um presente recebido de um verdadeiro amante desconhecido. Quem sabe de sua própria força que tanto viajou durante seus gestos? Carente de certezas ela soube que as respostas nem sempre são bem-vindas e que certas coisas tendem a ficar "no ar".

Por fim, dissipou a bruma de seus olhos e enxergou a incerteza intrigante do futuro sabendo que queria experimentá-lo. Acrescentou uma vírgula em seu livro existencial e não um ponto final. Haveriam muitíssimos capítulos pela frente, nem sempre movidos pelos risos, contudo reais e puros. Ela estava abatida/ triste? Estava, todavia foi desse modo que aceitou o mistério da vida e o seu mistério naquele definitivo momento, talvez o mais importante de sua pacata caminhada. O momento em que em busca da morte, encontrou o suspiro da existência.

                         
Lígia Portela Schipper; quinta-feira, 17 de junho de 2010