domingo, 13 de junho de 2010

Matrimônio Infausto

Outra repostagem.

Mais uma vez a campainha tocou às oito horas da noite, a conhecida sombra adentrou na casa e percorreu os cômodos vazios como era de praxe. Sentou-se na primeira cadeira em frente à mesa e fitou-a como de costume.

Observou os cachos que adornavam o rosto de traços finos daquela que o acompanhara durante quase toda a vida, aturando os sermões e o orgulho; as renúncias e as premissas que o dono da sombra havia criado. Sentiu o odor do costumeiro rosbife caseiro com salada de alface crespa o esperando na cozinha. Não se moveu. Aquela não era uma noite comum, não era o tempo pertencente à rotina e aos cuidados de sua bela esposa. Nem ela, nem ele, dirigiram-se a palavra, ambos permaneceram em silêncio por doze longos minutos. Renunciaram ao caos que se estabelecera fora da casa, assim como ignoraram a chuva forte e a ventania solta. Algumas lágrimas se jogaram em direção ao solo quando, finalmente, ele resolveu – após um longo suspiro – proferir algumas palavras.

- Já cuidou de tudo?
- Sim, já faz algum tempo, querido. – Ela olhou em volta, cruzou os braços e mordeu o lábio inferior.
- Ótimo, já pode alimentar o cão com o rosbife e preparar o suco.
- Está bem, estou indo... – Hesitou, pegou nos cachos e continuou – Por que você fez isso?
- Calada, alguém pode nos ouvir. Vá cuidar dos teus afazeres que hoje não é dia para conversarmos.

Por entre a porta marrom ela passou resignada, roendo as unhas e procurando um ponto fixo para não cambalear. Quando se viu sozinho ele tratou de tirar o casaco longo e colocá-lo na cadeira ao lado. Observou que havia um longo fio de cabelo ruivo e liso na manga direita. Num súbito quis retirá-lo, porém pensou: “que há mais para esconder?”. Deixou-o lá como se nunca tivesse o visto.
Os cachos voltaram com terra na sapatilha e o encararam cheios de cólera. Ela abriu a boca e num sussurro quis dizer alguma coisa, entretanto nada daquilo ele compreendera.

- Você não vai querer perder os seus sapatos, vai?

A repugnância e a fúria viajaram garganta abaixo pela mulher. Ela serviu-lhe o suco, lavou a louça, espreitou-o pela porta e depois voltou à cozinha. Procurou esconder os hematomas (provenientes da luta pela vida de uma desgarrada qualquer) que não foram provocados pelo marido. Não diretamente. Observou o pequeno copo com o resto da dose de dopagem que ele havia, novamente, a feito beber. Era contra sua vontade toda aquela monstruosidade, no entanto não havia outra saída. Dirigiu-se à janela, contemplou as folhas dançantes ao vento embriagadas pela escuridão da noite. Observou o quintal e a elevação recente de terra que encobria os restos de uma prostituta qualquer. Não acreditava que era tudo diversão daquele que ela um dia teve por amor; não consentia em continuar vivendo calada.

Retirou da panela fumegante uma última espiga de milho, saboreou-o como se nunca tivesse provado de tal alimento na existência; esqueceu-se daquele sugador sistemático de vidas e sentou-se na varanda. Fazia frio, o céu ameaçava tempestear mais ainda a cidade enquanto o cão não ousava latir. Subiu no banco de madeira que seu falecido avô havia dado a ela quando completara seus frescos cinco anos. Preparou o emaranhado de fios grossos - presos a uma viga - em volta do pescoço. Por fim, suspirou tranquilamente e chutou o banquinho.

Deste modo mais um dia terminou... como todos os outros.

Lígia Portela Schipper. Segunda-feira, 16 de outubro de 2009.