quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estação

Os trilhos rangiam enquanto o trem passava trêmulo pelas estações. Na estrada de ferro, o hálito empalidecia as janelas e borrava a paisagem que rapidamente dissipava-se no clarão do alvorecer. No velho trem, dois rostos confundiam-se inquietantes e jamais vistos anteriormente. Em contraponto, cinco conhecidos entreolhavam-se curiosos, medonhos e impacientes. Por fim, o trem parou.

Na nova estação encontraram, como que por pintura em chama, uma pequena casa. Nela, as rosas agarravam as paredes de encontro com a pequena sacada do segundo andar como se a protegesse do vento, frio e daqueles que desejavam penetrar-lhe. Era bela, porém assustava os transeuntes a fim de não conhecerem seu segredo. Todavia, os cinco que desembarcaram do trem penetraram a amálgama daquelas rosas num caminhar sem procura, apenas com a brisa da juventude e o penar da solidão que o futuro prometia. Tal casa, então, foi nomeada casa da avó de um dos rapazes que ali estavam. Misterioso o modo como aquele ser avisou o pertence da moradia, demorando, a espreita de qualquer suspiro.

Ao abrir a porta, foram cegados pelos raios de sol que ultrapassavam a única janela da sala. A luz imediatamente iluminou a madeira roída do único móvel do ambiente, uma mesa que, em sua superfície, uma caixa recheada de fotos repousava. Enquanto três moçoilas findavam a vontade de observar as fotos, os dois rapazes saíram sorrateiramente sem deixar qualquer indício. Ao virem-se sozinhas, preocuparam-se, entretanto, continuaram a analisar as fotos. Em uma delas, havia o retrato das mesmas três jovens, de olhos fechados e, de mãos dadas a uma delas, certa criatura espantosa, de cabelos que exalavam terror e aparência mórbida. Mortificadas pela existência de tal imagem, as duas moças que ali estavam passaram a ignorar a terceira que, no retrato sufocado pelo tempo, acompanhava tão estranho espectro.

Solitária, a terceira moça sentiu-se desprotegida ao perceber que um chamado fora solicitado: todos queriam uma foto para registrar o momento. De mãos dadas, a foto foi tirada, exceto pela jovem resignada que, ao tentar estender sua mão, foi rechaçada. Neste mesmo instante, uma das duas jovens correu junto dela e apanhou um ônibus. Dentro dele, a jovem prometeu segurar-lhe a mão sem contradições. E assim o fez. Nervos restabelecidos, olhares novamente trocados e atenções únicas, provocaram na excluída o sentimento de segurança, sensação única e imutável. Retornando às suas casas, surgiu, em meio à névoa, uma velha amiga das três. Esta, explicando-se, contou que a foto que tanto perturbara as meninas era uma velha foto sua, da qual participava também. A estranha criatura era ela. Arrependidos, buscaram abraçar a terceira garota, enquanto esta apenas abraçou a que a acompanhara até o local.

- Há nela o bom senso que não há em vocês, ingênuos. - disse.

No pranto, ouviu-se o titubear de portas se abrindo. Os que detestaram a jovem desfizeram-se em pó e, ao olhar das restantes, transformaram-se em luz para a janela. O trem soou outra vez na estação e anunciou a chegada de novos visitantes. Novamente, foi ouvido um ranger na porta. Eram mais cinco jovens e, em suas almas, a desolação.

- Vamos, temos muito que fazer. - disseram.

E assim, silenciosamente, apoderaram-se do corpo daqueles estranhos buscando a aceitação de suas feições deformadas no esconderijo de suas almas. Os dois rapazes sumiram e as mulheres passaram a observar as fotografias...

Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 09 de junho de 2010

P.S: Créditos à minha prima Simone por contar tão estranho sonho, só que sem tal final, visto que sonhos sempre são interrompidos pela realidade.