terça-feira, 8 de junho de 2010

Anjo; guarda-me

Repostagem.

A luz incandescente sempre levava aqueles que a escolhiam por carrasco. Os servos entregavam-se com júbilo, crentes na boa fé da tal brilho. Seria covardia alegar insanidade da parte da claridade quando esta realmente presenteava cada cão mal lavado com o banho eterno da serenidade. O problema estava nas causas, nos segredos e naqueles que da luz não tinham proveito.

Deu-se, certa vez, um caso espantoso, de rara beleza e empatia. Dois gêmeos univitelinos resguardavam certa bola perto de um penhasco, esperando à hora certa para praticar. O casal de gêmeos iniciou a partida logo ao último raio de sol. Por quê? Digo que lhes agradava a escuridão e o silêncio absoluto. A menina de cabelos ruivos contemplou o céu, olhou para o irmão e tornou-se inquieta.

- O que é que tens? - perguntou ele.
- Choverá demais hoje, irmão. Acho melhor irmos para casa antes de tal tempestade.
- Bobagem, o céu estrelado brilha tanto quanto teus olhos.
- Ainda acho que não é seguro ficar aqui; além disso, existe este penhasco horrendo. - insistiu ela ao sentir uma leve brisa.
- Lembra-se da figura na parede de nosso quarto, irmã?
- Lembro sim, o que é que tem ela?
- Há nela um anjo que nos protegerá caso a bola se aproxime do precipício. - disse ele enquanto fixava os olhos em direção ao vazio.
- Anjos da guarda não existem e você devia saber disso.
- Bobagem... - e ele fechou os olhos, caminhou para frente como quem zombasse do perigo.
- Pare! - numa súplica ela gritou.
Foi então que, como que por destino, a chuva começou a cair acompanhada de trovoadas infindáveis. Era cena de livros, de João e Maria perdidos na floresta, só que não havia muito espanto nas mãos do garoto que tateavam o negro da noite já a procura da irmã.
Escurecera tanto que mal se podia ver o céu. A dona dos cabelos cor de casca de laranja queimada desesperou-se e se pôs a procurar o irmão. Num súbito, ouviu um grito derradeiro e sufocado como que pela distância. Foi quando se viu em frente ao penhasco, olhou para baixo e notou uma pintura abstrata qualquer, queria negar, mas lhe parecia o irmão. Logo um raio iluminou sua noite convidando-a para mergulhar naquele infinito funesto, quando um suspiro desfez o silêncio na calada da obscuridade.
- Anjo; guarda-me...

Por fim, clareou-se um pouco o ocaso e certo fogo brilhou em meio às rochas molhadas de mais um céu estremecido.

Lígia Portela Schipper; segunda-feira, 09 de novembro de 2009