sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alvorada

Certa feita, na alvorada, a sutileza de uma coragem desconhecida invadiu o ser de determinada pele plácida que contemplava a luz ofuscante do momento.


Como se previsse seu destino, coisa na qual não acreditava, pressentiu que haveriam algumas questões pendentes em sua vida em breve. O tormento prematuro desvencilhou sua coragem e a encarcerou, novamente, em seus temores. Temores estes que porventura não lhe fariam falta se não fossem póstumos ao que lhe sucumbia a mente, devorava o coração e derramava em sangue suas quimeras. Enrubesceu ao deparar-se com seu tesouro maligno e pôs-se a dialogar com as moscas. Mais uma vez escapou de sua felicidade.
Porém, como se nada bastasse de insano em seu conto, presenciou, enquanto gesticulava frases de caráter secundário ao espelho, qualquer coisa sobre um rapaz alvo de tons escuros e maleficências na comunicação. Este era por demais culto e demasiado comparativo a ela. Desta vez, quiçá, não haveria escapatória. Agarrou a chave de seu bolso e destrancou as portas de sua covardia.


Por fim, ao meio dia, podia sentir os calejados dedos macios em sua pele e o ronronar de algo maior. A minúscula e sorrateira porta havia decidido dar-lhe um destino factual. Abraçou sua alegria e adormeceu. E então, à uma hora, despertou solitária, como se o imaginário lhe fosse concreto e vice-versa. Sonhara ou apenas tentava crer em tal hipótese. Era melhor que estivesse apenas ela e seus pensamentos estirados na cama, a presença de qualquer outro ser lhe era extremamente incompreensível.


A luz ofuscante cessara; ela tardara a abrir os olhos...


But, I have a friend
With whom I like to spend
Anytime I can find, with
I like sleeping in your bed
I like knowing what is going on inside your head
I like taking time and I like your mind and I like when your hand is in mine
Odeio isso.

Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 12 de maio de 2010