domingo, 27 de junho de 2010

Retrato

Mais uma repostagem...

A magnificência da beleza transpõe os limites da razão de forma grandiosa e ao mesmo tempo inócua, ignóbil. Ao contrário da segunda, esta se esvai e como lembrança deixa apenas as imagens de profundidade exorbitante e coloquial.

Como uma foto abandonada na linha imaginária da história, a imagem não resiste ao tempo e deixa que as manchas amarelas instalem-se sorrateiramente em sua tinta preta e branca. Os riscos de dobrada, amassada e jogada ao chão exalam velhice, remorso e comodismo: a era em que a fotografia disputava as mais belas molduras da sala já passara, entretanto as cicatrizes furtivas não se findaram, pois continuaram vivas e pulsantes. Ao tocá-las rasgam-se mais profundamente, dando continuidade a um ciclo infinito de recordações e toques que aquela cena congelada resguardou durante toda sua existência ornamental. É na profundidade do simplório que o vasto poder encontra-se.

Por fim, o retrato dá boas vindas ao último raio de sol que irá iluminar sua face descolorida. Dentre toda essa aquarela sem cor, há no verso da suntuosa efígie uma lembrança: “dos dias mais felizes da minha vida: Eu.”

Foi-se a beleza... foi-se o retrato.


Lígia Portela Schipper; quinta-feira, 15 de outubro de 2009.

sábado, 26 de junho de 2010

Silenciux

Se algumas coisas são pesadas, porém não o suficiente para ancorar no esquecimento, pese-as mais. Antes do amanhecer haverá sempre a escuridão plena.

Senti vontade de escrever neste momento. Esta é uma de minhas raras vontades, pois sentir vontade é como relembrar-se de alguém há muito esquecido e, neste caso, jamais esqueci da escrita. É por este motivo que as palavras, conjunturas, erros e sintaxes desta dissertação devem ser relevados e, pelo bem estar de todos, compreendidos como o magnânimo suspiro da existência que invade meu ser.

Esse suspiro não é o de esperança ou coragem, mas sim o de cansaço. Tantos equívocos foram cometidos nos últimos meses... tantos acertos involuntários que iludiram-me com a paisagem turva da felicidade. Em busca de uma solução acabei por acatar mazelas aparentemente findas, no entanto de modos que definham minha energia e mente todos os dias. Na caminhada pelo esquecimento esqueci que algumas lembranças são de suma importância na formação do caráter de um ser e que as tentativas corroboram nossas decisões assertivas, tornando-nos possuidores de nossa própria - contudo mutável - verdade. Minhas verdades foram corrompidas pelo espectro do passado que tanto zelou por seus momentos importunos. Cansei-me, então, da fadiga e do descaso: tentei. Tentei de diversificadas formas manter meus sentimentos e condutas acima de quimeras habituais. Foi assim que, em meio ao redemoinho de gente que me atordoava, descobri-me - invariavelmente - apaixonada. Não lhes digo que me apaixonei pelo olhar de um homem ou profundidade de uma arte. Apenas apaixonei-me e, sabendo que talvez fosse recíproco e temido, calei-me. Garanto-lhes que apaixonar-se é encontrar-se em estado súbito de espírito que acalenta a presença de determinando ser pensante e almeja o doce de alguns gestos. Acontece que as belezas todas possuem seus encantos para confundir nossas pacatas ideias.
É tão triste amar na covardia que feliz na sorte. A arte de ocultar é talvez tão boa e inútil quanto a do silêncio. Quando não está em nossas mãos o rumo de certos acontecimentos, as abrimos e deixamos escapar por entre os dedos as possibilidades antes vagas e invisíveis que habitavam as linhas de nossa palma. O esquecimento não é tarefa fácil. É árduo o período de desdém a que nos submetemos para conservar nossa sucinta existência. Ter covardia para concretizar as palavras e a fugacidade do desejo é o mesmo que não fazer valer o que se sente. Por um tempo pode-se aceitar tal conduta. Depois, quando se exacerba o tempo, vê-se que se não ocorreu foi porque não forte o suficiente era para concretizar-se. Tão banal; tão clichê. Quando o medo de um acaba por tornar-se o medo de outro, o cessar torna-se prematuro e o romance sequer inicia.

Então, o que era forte desmancha-se e a cumplicidade se esvai. Restam as sensações que jamais foram sentidas e as memórias jamais vividas. Resta, no lugar do sopro da existência, o da ausência. É um fim comum a ser presenciado e vivenciado. Afinal, por que fui imaginar que haveria história?

Liberté.


Lígia Portela Schipper; sábado, 26 de junho de 2010.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

É bom ser chamado assim, não é? Todas essas qualidades e vaidades reunidas em uma só pessoa: você. Invencível; é assim que você se sente.

Nada pode ser maior que você e sua paixão pelo que lhe sustenta. Porém, diante de tão majestosas relíquias, há em sua mente a consciência de que nada passa de mentira. Sua ilusão pode ser alimentada pelos tolos, aplaudida pelos enganados e admirada pelos que lhe amam, todavia, em seu labirinto não existem saídas além das que chegam ao seu egocentrismo. O mundo todo pode lhe saudar, as nuvens podem formar as letras do seu nome no céu e os pássaros podem cantar suas favoritas canções que mesmo assim você jamais terá liberdade para respirar na atmosfera da verdade.
 
Você não é o que dizem que é. Você não é aquilo de que se chama. Você é igual a todos os outros. Você é igual a todos nós. Um dia você saberá disso. Então, apenas aceite este fato.

Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 23 de junho de 2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Suspiro da Rosa


Este é comum a todos; piegas.
 
Como a rosa flamejante, lá estavam as madeixas da bem delineada moça. Não lhe atribua traços largos e carnudos, pois tal donzela não carregava em sua tez a beleza contemporânea tão endeusada. Seus olhos refletiam o mais pueril das margaridas e sua pele a maciez do veludo. Os cabelos eram de seda pura, cacheados, adornando seu pálido rosto. O corpo era longo e magro, alguns a tinham por pele e osso, outros por magnífica representação da suavidade, colírio para os olhos e problemas para si.

Apesar da jovialidade e graciosidade, havia em seu silêncio interior o eco de suas súplicas sussurradas aos ouvidos do planeta. Não era das mais afortunadas no dinheiro nem no amor, as amizades raramente se prolongavam e o contato com os familiares há muito fora perdido. Entretanto, a simpatia que possuía com alguns de seus "escolhidos" era tamanha a ponto de confundir os que a rodeavam. Durante toda sua vida, trocou o que lhe tão bem fazia pelo incerto, quem sabe até derradeiro - devido aos trágicos fins de que pôde participar - transformando sua beleza em puro adorno, nada além de poesia para os amantes platônicos e adoradores secretos. O imaginário de sua mente criou em seu subconsciente a sensação e os sentimentos de vazio, equívoco e medo. Aquilo que um dia fora tão certo quanto sua imagem na água límpida repentinamente era invadido pelo túrgido das tempestades. Talvez ela quisesse sofrer; talvez ela devesse.

Diariamente as questões insípidas à trivialidade humana corroboravam a sensação de que o mais fugaz dos olhares era a tênue forma de expressão da felicidade no mausoléu em que erguiam seus temores e anseios. Seus argumentos levaram-na a crer que é uma falha humana buscar sempre o entendimento das coisas, sem saber que, em grande parte das vezes, o desentendimento é que deveria chamar a atenção. Para ela, deveríamos aprender a desaprender. Desaprender aquilo em que acreditamos e nos foi negado, desaprender as horas e as dores, o efêmero, o que nunca se concretizou e, por fim, esquecer-nos. Negando nossa própria existência teríamos a paz interior que ela tanto buscava. 

Procurava, incessantemente, respostas em livros que não lhe dariam nada mais que pensamentos banais e vultos de sabedoria. Sua história, no recanto de seu apartamento, jamais encantou os cegos e fez ouvir os surdos. Existia para si e para seu trabalho. Vivia da incansável espera. A expectativa em que havia mergulhado provinha dos lagos mais poluídos, das mentes mais frágeis e dos encantos mais transitórios. Sua inquietude para com a humanidade demorou a acalmar-se para que, no lugar da busca, encontrasse-a tocando sua campainha. Rotineiramente cobrou do tempo as horas, do amor os prazeres, das mágoas a cura e de si mesma, sua alma. Dos dias, apenas teceu suas mazelas e desdenhou do alvorecer. Esqueceu-se, durante tanto tempo, de que agia mais por impulso inconsciente e esculpiu uma vida sem preenchimento. Uma árvore oca de frutos amargos. 

Ali estava a moça após tantos invernos, carregando ainda sua elegante aparência, de pernas para o ar, sentada no precipício de seu fenecimento. Enquanto a brisa lhe acariciava as maçãs da face, descobriu que em busca de tanto desapego acabou por apegar-se ao hábito, tornando-o vício. Deu conta de que o tempo, as horas e os dias não eram um privilégio de todos, mas apenas dos que bom proveito faziam deles, pois independentemente de seu círculo social, conquista acadêmica e afetividades o mundo lhes pertencia. Pôde, enfim, aceitar que as semanas não eram um direito seu; algo que não podia ser tomado de suas mãos e findado. Aceitou sua pequenez, não se impôs acima das certezas e das dúvidas. Não era nenhuma heroína detentora da altivez do sábio e agilidade do jovem. Soube, após redirecionar sua mão para si mesma no lugar de apontar aos outros, que cada dia era um presente recebido de um verdadeiro amante desconhecido. Quem sabe de sua própria força que tanto viajou durante seus gestos? Carente de certezas ela soube que as respostas nem sempre são bem-vindas e que certas coisas tendem a ficar "no ar".

Por fim, dissipou a bruma de seus olhos e enxergou a incerteza intrigante do futuro sabendo que queria experimentá-lo. Acrescentou uma vírgula em seu livro existencial e não um ponto final. Haveriam muitíssimos capítulos pela frente, nem sempre movidos pelos risos, contudo reais e puros. Ela estava abatida/ triste? Estava, todavia foi desse modo que aceitou o mistério da vida e o seu mistério naquele definitivo momento, talvez o mais importante de sua pacata caminhada. O momento em que em busca da morte, encontrou o suspiro da existência.

                         
Lígia Portela Schipper; quinta-feira, 17 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fico triste por aqui, entre você e eu, enxergar esta cerca triste, por onde só passam nossas mãos. O que você pretende fazer quando acordar, além de abrir os olhos?  - lyz

segunda-feira, 14 de junho de 2010

E se esse fosse meu último recado, seria meu último suspiro também. Porque de lembretes vivo a vida, relembrando ou esquentando a memória a ponto de evaporá-la. Sem labaredas fugazes ou superstições, morreria da mesma forma meu suspiro. Então, nada restaria além desta carcaça intrépida e branca, sem vida, alma, amor (...)

Nem sempre o que nos sustenta está próximo ou dentro de nós. Algumas vezes sequer existe.

Definhando...

Lígia P. S.; segunda-feira, 14 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

Matrimônio Infausto

Outra repostagem.

Mais uma vez a campainha tocou às oito horas da noite, a conhecida sombra adentrou na casa e percorreu os cômodos vazios como era de praxe. Sentou-se na primeira cadeira em frente à mesa e fitou-a como de costume.

Observou os cachos que adornavam o rosto de traços finos daquela que o acompanhara durante quase toda a vida, aturando os sermões e o orgulho; as renúncias e as premissas que o dono da sombra havia criado. Sentiu o odor do costumeiro rosbife caseiro com salada de alface crespa o esperando na cozinha. Não se moveu. Aquela não era uma noite comum, não era o tempo pertencente à rotina e aos cuidados de sua bela esposa. Nem ela, nem ele, dirigiram-se a palavra, ambos permaneceram em silêncio por doze longos minutos. Renunciaram ao caos que se estabelecera fora da casa, assim como ignoraram a chuva forte e a ventania solta. Algumas lágrimas se jogaram em direção ao solo quando, finalmente, ele resolveu – após um longo suspiro – proferir algumas palavras.

- Já cuidou de tudo?
- Sim, já faz algum tempo, querido. – Ela olhou em volta, cruzou os braços e mordeu o lábio inferior.
- Ótimo, já pode alimentar o cão com o rosbife e preparar o suco.
- Está bem, estou indo... – Hesitou, pegou nos cachos e continuou – Por que você fez isso?
- Calada, alguém pode nos ouvir. Vá cuidar dos teus afazeres que hoje não é dia para conversarmos.

Por entre a porta marrom ela passou resignada, roendo as unhas e procurando um ponto fixo para não cambalear. Quando se viu sozinho ele tratou de tirar o casaco longo e colocá-lo na cadeira ao lado. Observou que havia um longo fio de cabelo ruivo e liso na manga direita. Num súbito quis retirá-lo, porém pensou: “que há mais para esconder?”. Deixou-o lá como se nunca tivesse o visto.
Os cachos voltaram com terra na sapatilha e o encararam cheios de cólera. Ela abriu a boca e num sussurro quis dizer alguma coisa, entretanto nada daquilo ele compreendera.

- Você não vai querer perder os seus sapatos, vai?

A repugnância e a fúria viajaram garganta abaixo pela mulher. Ela serviu-lhe o suco, lavou a louça, espreitou-o pela porta e depois voltou à cozinha. Procurou esconder os hematomas (provenientes da luta pela vida de uma desgarrada qualquer) que não foram provocados pelo marido. Não diretamente. Observou o pequeno copo com o resto da dose de dopagem que ele havia, novamente, a feito beber. Era contra sua vontade toda aquela monstruosidade, no entanto não havia outra saída. Dirigiu-se à janela, contemplou as folhas dançantes ao vento embriagadas pela escuridão da noite. Observou o quintal e a elevação recente de terra que encobria os restos de uma prostituta qualquer. Não acreditava que era tudo diversão daquele que ela um dia teve por amor; não consentia em continuar vivendo calada.

Retirou da panela fumegante uma última espiga de milho, saboreou-o como se nunca tivesse provado de tal alimento na existência; esqueceu-se daquele sugador sistemático de vidas e sentou-se na varanda. Fazia frio, o céu ameaçava tempestear mais ainda a cidade enquanto o cão não ousava latir. Subiu no banco de madeira que seu falecido avô havia dado a ela quando completara seus frescos cinco anos. Preparou o emaranhado de fios grossos - presos a uma viga - em volta do pescoço. Por fim, suspirou tranquilamente e chutou o banquinho.

Deste modo mais um dia terminou... como todos os outros.

Lígia Portela Schipper. Segunda-feira, 16 de outubro de 2009.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alvorada

Certa feita, na alvorada, a sutileza de uma coragem desconhecida invadiu o ser de determinada pele plácida que contemplava a luz ofuscante do momento.


Como se previsse seu destino, coisa na qual não acreditava, pressentiu que haveriam algumas questões pendentes em sua vida em breve. O tormento prematuro desvencilhou sua coragem e a encarcerou, novamente, em seus temores. Temores estes que porventura não lhe fariam falta se não fossem póstumos ao que lhe sucumbia a mente, devorava o coração e derramava em sangue suas quimeras. Enrubesceu ao deparar-se com seu tesouro maligno e pôs-se a dialogar com as moscas. Mais uma vez escapou de sua felicidade.
Porém, como se nada bastasse de insano em seu conto, presenciou, enquanto gesticulava frases de caráter secundário ao espelho, qualquer coisa sobre um rapaz alvo de tons escuros e maleficências na comunicação. Este era por demais culto e demasiado comparativo a ela. Desta vez, quiçá, não haveria escapatória. Agarrou a chave de seu bolso e destrancou as portas de sua covardia.


Por fim, ao meio dia, podia sentir os calejados dedos macios em sua pele e o ronronar de algo maior. A minúscula e sorrateira porta havia decidido dar-lhe um destino factual. Abraçou sua alegria e adormeceu. E então, à uma hora, despertou solitária, como se o imaginário lhe fosse concreto e vice-versa. Sonhara ou apenas tentava crer em tal hipótese. Era melhor que estivesse apenas ela e seus pensamentos estirados na cama, a presença de qualquer outro ser lhe era extremamente incompreensível.


A luz ofuscante cessara; ela tardara a abrir os olhos...


But, I have a friend
With whom I like to spend
Anytime I can find, with
I like sleeping in your bed
I like knowing what is going on inside your head
I like taking time and I like your mind and I like when your hand is in mine
Odeio isso.

Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 12 de maio de 2010

Prêmio Dardos

Seguindo a corrente dos blogs, fui indicada pelo Raphael Vitoi (http://davevaughn.blogspot.com/) e, continuando, vou indicar mais 15 blogs para esta corrente que, aparentemente, não terá fim. Os indicados deverão fazer o mesmo. Obrigadinha!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estação

Os trilhos rangiam enquanto o trem passava trêmulo pelas estações. Na estrada de ferro, o hálito empalidecia as janelas e borrava a paisagem que rapidamente dissipava-se no clarão do alvorecer. No velho trem, dois rostos confundiam-se inquietantes e jamais vistos anteriormente. Em contraponto, cinco conhecidos entreolhavam-se curiosos, medonhos e impacientes. Por fim, o trem parou.

Na nova estação encontraram, como que por pintura em chama, uma pequena casa. Nela, as rosas agarravam as paredes de encontro com a pequena sacada do segundo andar como se a protegesse do vento, frio e daqueles que desejavam penetrar-lhe. Era bela, porém assustava os transeuntes a fim de não conhecerem seu segredo. Todavia, os cinco que desembarcaram do trem penetraram a amálgama daquelas rosas num caminhar sem procura, apenas com a brisa da juventude e o penar da solidão que o futuro prometia. Tal casa, então, foi nomeada casa da avó de um dos rapazes que ali estavam. Misterioso o modo como aquele ser avisou o pertence da moradia, demorando, a espreita de qualquer suspiro.

Ao abrir a porta, foram cegados pelos raios de sol que ultrapassavam a única janela da sala. A luz imediatamente iluminou a madeira roída do único móvel do ambiente, uma mesa que, em sua superfície, uma caixa recheada de fotos repousava. Enquanto três moçoilas findavam a vontade de observar as fotos, os dois rapazes saíram sorrateiramente sem deixar qualquer indício. Ao virem-se sozinhas, preocuparam-se, entretanto, continuaram a analisar as fotos. Em uma delas, havia o retrato das mesmas três jovens, de olhos fechados e, de mãos dadas a uma delas, certa criatura espantosa, de cabelos que exalavam terror e aparência mórbida. Mortificadas pela existência de tal imagem, as duas moças que ali estavam passaram a ignorar a terceira que, no retrato sufocado pelo tempo, acompanhava tão estranho espectro.

Solitária, a terceira moça sentiu-se desprotegida ao perceber que um chamado fora solicitado: todos queriam uma foto para registrar o momento. De mãos dadas, a foto foi tirada, exceto pela jovem resignada que, ao tentar estender sua mão, foi rechaçada. Neste mesmo instante, uma das duas jovens correu junto dela e apanhou um ônibus. Dentro dele, a jovem prometeu segurar-lhe a mão sem contradições. E assim o fez. Nervos restabelecidos, olhares novamente trocados e atenções únicas, provocaram na excluída o sentimento de segurança, sensação única e imutável. Retornando às suas casas, surgiu, em meio à névoa, uma velha amiga das três. Esta, explicando-se, contou que a foto que tanto perturbara as meninas era uma velha foto sua, da qual participava também. A estranha criatura era ela. Arrependidos, buscaram abraçar a terceira garota, enquanto esta apenas abraçou a que a acompanhara até o local.

- Há nela o bom senso que não há em vocês, ingênuos. - disse.

No pranto, ouviu-se o titubear de portas se abrindo. Os que detestaram a jovem desfizeram-se em pó e, ao olhar das restantes, transformaram-se em luz para a janela. O trem soou outra vez na estação e anunciou a chegada de novos visitantes. Novamente, foi ouvido um ranger na porta. Eram mais cinco jovens e, em suas almas, a desolação.

- Vamos, temos muito que fazer. - disseram.

E assim, silenciosamente, apoderaram-se do corpo daqueles estranhos buscando a aceitação de suas feições deformadas no esconderijo de suas almas. Os dois rapazes sumiram e as mulheres passaram a observar as fotografias...

Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 09 de junho de 2010

P.S: Créditos à minha prima Simone por contar tão estranho sonho, só que sem tal final, visto que sonhos sempre são interrompidos pela realidade.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Anjo; guarda-me

Repostagem.

A luz incandescente sempre levava aqueles que a escolhiam por carrasco. Os servos entregavam-se com júbilo, crentes na boa fé da tal brilho. Seria covardia alegar insanidade da parte da claridade quando esta realmente presenteava cada cão mal lavado com o banho eterno da serenidade. O problema estava nas causas, nos segredos e naqueles que da luz não tinham proveito.

Deu-se, certa vez, um caso espantoso, de rara beleza e empatia. Dois gêmeos univitelinos resguardavam certa bola perto de um penhasco, esperando à hora certa para praticar. O casal de gêmeos iniciou a partida logo ao último raio de sol. Por quê? Digo que lhes agradava a escuridão e o silêncio absoluto. A menina de cabelos ruivos contemplou o céu, olhou para o irmão e tornou-se inquieta.

- O que é que tens? - perguntou ele.
- Choverá demais hoje, irmão. Acho melhor irmos para casa antes de tal tempestade.
- Bobagem, o céu estrelado brilha tanto quanto teus olhos.
- Ainda acho que não é seguro ficar aqui; além disso, existe este penhasco horrendo. - insistiu ela ao sentir uma leve brisa.
- Lembra-se da figura na parede de nosso quarto, irmã?
- Lembro sim, o que é que tem ela?
- Há nela um anjo que nos protegerá caso a bola se aproxime do precipício. - disse ele enquanto fixava os olhos em direção ao vazio.
- Anjos da guarda não existem e você devia saber disso.
- Bobagem... - e ele fechou os olhos, caminhou para frente como quem zombasse do perigo.
- Pare! - numa súplica ela gritou.
Foi então que, como que por destino, a chuva começou a cair acompanhada de trovoadas infindáveis. Era cena de livros, de João e Maria perdidos na floresta, só que não havia muito espanto nas mãos do garoto que tateavam o negro da noite já a procura da irmã.
Escurecera tanto que mal se podia ver o céu. A dona dos cabelos cor de casca de laranja queimada desesperou-se e se pôs a procurar o irmão. Num súbito, ouviu um grito derradeiro e sufocado como que pela distância. Foi quando se viu em frente ao penhasco, olhou para baixo e notou uma pintura abstrata qualquer, queria negar, mas lhe parecia o irmão. Logo um raio iluminou sua noite convidando-a para mergulhar naquele infinito funesto, quando um suspiro desfez o silêncio na calada da obscuridade.
- Anjo; guarda-me...

Por fim, clareou-se um pouco o ocaso e certo fogo brilhou em meio às rochas molhadas de mais um céu estremecido.

Lígia Portela Schipper; segunda-feira, 09 de novembro de 2009
Teu medo despertou em mim o penar.

domingo, 6 de junho de 2010

The Wish List

Gosto de maçã, pêra, pêssego...

Sonhar, que bela palavra que habita nosso dicionário. Competindo com a profunda saudade, sonhar é a mais surreal e bela palavra que proferem nossos lábios. Sonhar acordado, desejar algo, idealizar as coisas e pessoas podem ser erros tão grandes quanto a falta de sonhos que acoberta nossas fraquezas com a possível maturidade.

Sonhos são demasiadamente importantes, fluindo de nossa mente e ideias, buscando linhas para tornarem-se concretos e sempre carregando a esperança de que a verdade vai além das mentiras e impossibilidades das quimeras. Nenhuma utopia é totalmente derrotada, seu fim é imprevisível, jamais se esvai. Sonhar é como manter a chama da lareira acesa ao padecer a lenha, como os olhos que se abrem ao despertar ou como as horas que, sorrateiras, carregam nossas vidas nos ombros. Sem tudo isso não há manhã, sorrisos e conforto. Há muito que o ato de sonhar foi vulgarizado. Certa vez, em seu âmago, fora o ato de imaginar aquilo que não necessariamente pode ocorrer. O medo da decepção não deve ser temor dos sonhos, sonhar não é ter os pés no chão, sonhar é deixar que a brisa nos carregue até o apogeu de nossas emoções. É preciso ser corajoso para sonhar, por mais que pareça mais fácil erguer muros em nossa existência buscando a frieza total. Isso é covardia.

Jamais tive o tão sufocante conceito de sonhos que as pessoas adquiriram devido ao senso de realidade que é pregado atualmente nas novas gerações. O real é essencial, realismo é essencial, porém, sonhar não deve ser o desejo movido pelo medo da frustração. Possuir fantasias será sempre o ato de menosprezar qualquer matéria para suspirar em meio ao que não é fidedigno. Finalidades são confundidas com sonhos todos os dias. Os objetivos, ao contrário do que muitos raciocinam, é que provocam a decepção se não alcançados. Os sonhos não. Estes, a partir do momento em que os criamos, deixam claro que não advirão porque, assim como todos os outros, nossa individualidade modifica cada característica de personalidade que aqueles que nos rodeiam possuem sem perceber. Esta mudança provoca a troca de sentidos e fatos perante o mundo, tornando-o único e existente apenas em sonho.

Os sonhos são irreais. Os objetivos são apenas fruto dos sonhos. Objetivos são como as bordas do bolo, devaneios são seu recheio. Jamais, em vida terrena, temos a qualidade de não confundir em palavras aquilo que é sonho e aquilo que é alvo. As metas, confundidas, são as metas mesmo quando às denominamos sonhos. Existem os desejos pessoais e impessoais. A ilusão pode ser massificada ou individualista. Sonhar é uma vida alternativa que construímos com base em nossas inseguranças e insatisfações, solidificadas por esperança e comodismo. O ingênuo egoísmo sustenta o sonho. Apesar de aparentemente perigoso, há em seu casticismo a magia do insustentável, do eterno, do imutável e impermeável.

Sua natureza suplanta o material, está livre dos mesquinhos e enganados. Sonhar, agora, é um ato de sobrevivência. Quem não sonha, não vive. Iludir-se é a melhor forma de habitar o mundo em que vivemos. Presentemente, sonhar é oxigênio nas horas solitárias em que nos pegamos olhando para o espelho e rindo. Nós, sonhadores, temos um legado eterno para representar. Tão autêntico legado provém de fantasias, o real provém do irreal e, sendo assim, é o que presenciamos dia-após-dia, com ou sem sonho, esperando apenas para ser relembrado.

Lígia Portela Schipper; domingo, 06 de julho de 2010