domingo, 23 de maio de 2010

Memories


As linhas delineadas nos velhos diários saudosos da infância traçaram muito mais do que momentos corriqueiros ou estapafúrdios: carregaram em suas letras a emoção sentida em cada acontecimento, podendo transpassar o limite do tempo e perpetuar seus impactos.
É desta forma que hoje, 23 de maio de 2010, pude sentir cada sensação que, anos atrás, foram vivenciadas pela esmeralda de meus olhos. Em cada linha narrada por minha prima e confidente, podia relembrar dos gestos e gostos de um tempo perdido nas gavetas desorganizadas da memória. Uns ou outros não puderam ser previamente identificados, porém, imagens transportavam para uma época em que as grandes preocupações rondavam o lugar onde eu passaria o fim de semana, a quantidade de abraços que eu daria em meus amigos ou mesmo o sucesso destes em seus aspectos físicos e emocionais. Saudade. Havia muito mais valorização, sinceridade e ternura nas simples palavras e nos gratuitos erros de português, abreviações e símbolos que marcavam o nome dos coadjuvantes de minha peça imaginária e surreal. A vida era um mistério a ser desvendado, não um penar eterno de desilusões.
Cores vívidas ainda permeiam de minhas afirmações e negações, descrições e sentimentos nocauteadores de uma pré-adolescência faceira. Talvez houvessem sinais de que as nuvens nem sempre permaneceriam no céu, bem como não pude notar a tradicional crença na perfeição e felicidade da Vida. Em meus próprios julgamentos, os contrastes são evidentes: uns e outros eram, em minha visão juvenil, imaturos para sua idade. Citei até mesmo a utilização da ética no decorrer da vida! Que mera criança seria essa que criticava estilos e credos em plena e pueril juventude? Era eu. Era meu ser que gritava ao mundo a presença de alguém, não de alguma coisa. E essa pessoa apagada pelo tempo - ou completada por ele, como quiser - findou sua história com a sofreguidão daquilo que já esperava diante do apreço pelos mais banais fatos.
Havia o desejo, a certeza e a dúvida. Porém, não havia o medo. O medo era inexistente, as certezas eram infinitas e a dúvida esperava por uma resposta que - certamente - deveria haver. Corroboram tais questões os pensamentos de afeto e presunção que despontavam em meus 11 anos. Já naqueles minutos dedicados aos meus diários eu possuía o conhecimento de que, um dia, meu âmago riria cômico do que eu narrava, mas, ainda assim, cada minuto teria valido à pena, cada toque teria me feito derradeiramente feliz e cada olhar teria dado às minhas perguntas, respostas, mesmo que vazias, conflitantes. As primeiras experiências, as últimas confissões, tudo o que foi finito está contido nas folhas coloridas e cheias de vida de meus cadernos ambulantes. Impagável, insubstituível, infinito.
Por isso, meu corpo não resguardava uma mente tão ignóbil, inócua, quanto pensava. Alguns possuem o extremo de suas mazelas na sexta série, quando, após dedicar-se ao estudo, superam a apreensão da nota baixa. Hoje, nossos limites percorrem o campo dos exageros, dos grandes e dos pequenos, dos absurdos e aceitáveis, do intolerante e do agradável. A conquista não envolvia o prêmio, envolvia seu percorrer e suas formas. Malditas indagações que adentraram a verdade humana.
O apontamento de certos credos alertava para alguns de meus futuros problemas: baixa auto-estima, coragem ou mesmo crítica daquilo que era. Tão minúsculas descrições surgiam talvez até ignoráveis como se em nada afetassem meu caráter. Hoje, para tristeza dos que nos rodeiam, os pilares de nossos problemas demonstram-se mais límpidos e antigos que suas primeiras aparições. A infância, onde meu preenchimento foi feito, decretou um meio e um social superiores ao que vivi. Transformei-me, não apenas cresci.
Não atingi tudo aquilo que há de supremo, permaneço sem rugas, todavia, a mudança prescreveu cada milésimo de minha história. Raramente encontrarei vestígios do que fui naquela em que me transformei. Apesar de tudo, até mesmo em tão antiga época, tinha consciência de que havia em mim alguém que se transformaria no que hoje sou.

Adeus, querido diário...

Lígia Portela Schipper; domingo, 23 de maio de 2010