domingo, 23 de maio de 2010

Le Moulin de La Galette


Ventania solta no céu azul ao entardecer manchado pelas nuvens carregadas. Dedos paralisados pelo gélido inverno soado pelas andorinhas. Nada além de sua enxada e o árduo trabalho diário que tanto lhe era necessário.
No acalanto da vida, sinfonia desmedida, retornava em seu passado com notória saudade. O afago da mulher na choupana mal acabada encorajava-o a resistir à sofreguidão. Suas venturas demasiado aparentes não lhe serviam de consolo tanto quanto à hora do moinho. À hora do moinho era o corriqueiro desdobrar das grandes sacolas recheadas de trigo que o fazendeiro resguardava no interior do moinho. Sua vida, encenada pela melodia de um colher durante as manhãs iluminadas do campo, lembrava a suavidade das beiradas na plantação. Sua esposa o acompanhara desde seus remotos doze anos de idade, quando se conheceram em frente ao moinho de seu falecido pai.
As árvores trôpegas observaram cada nascer e morrer da existência nas almas dos que às rodeavam. O primeiro assassinato ocorrente naquele local fora a ausência da filha mais nova do casal de campeiros que aos dezesseis anos de idade os abandonara devido ao prazer da pesca. Numa noite chuvosa, resolveu pescar e despediu-se da família juntando-se aos peixes. A segunda vez foi ainda mais temerosa: a mulher que engravidou perdeu seu filho depois de cair do moinho azul. Queria consertar uma tábua que havia sido movida para a direita devido à força da ventania do dia anterior e acabou por cair, enterrando na terra o vermelho triste de uma história morta.  
No efêmero olhar dos que abandonaram a fértil terra ficava aquele rodear incessante do moinho quando o vento era eficaz. De fato, teceram sua história ao cercar das hastes do lugar onde transformavam o trigo em farinha. Assim como suas vidas foram sendo modificas e transformadas, o que gerava força para continuá-lo cessou. O conserto era caro e vinha de longe, não havia quem pudesse pagar por ele. O moinho parado desdenhava seus proprietários com altivez, como que querendo lembrá-los de que um dia não haveria mais em que esperançar-se para o amanhecer. 
Ardia na chama de suas quimeras um fogo que foi enxaguado pela água suja de suas mazelas. Quando não havia nada além de suspiros forçados e piscadelas derradeiras, coisa nenhuma restou; tudo sucumbiu. A valsa de suas vidas foi encerrada com destreza: o vento retornou ao moinho, mas a enxada não...
Lígia Portela Schipper; 26 de abril de 2010