segunda-feira, 17 de maio de 2010

La noyée


Tristeza: por que tão belo é tão devasso sentimento? De onde, em tua amargura, vem tal encanto que posiciona-nos de forma que abrimos mão de um sorriso simplório e cálido por um breve momento de “choratéu”? Sim, nos agrada a tristeza, nos agrada o penar a nós mesmos e a depressão.
Quando pequenos as cantigas de ninar nos soam assombrosas, para dormirmos é necessário um canto de medo, glorioso vencer do penar, coisa tal que nos faça abotoar o sono e, por fim, acordar apenas quando o sol raiar. Ao induzir-nos para dormir utilizando da cuca que irá nos pegar ou mesmo da rua que desejamos ladrilhar, incentivamos inocentemente o preparo para dores e temores ainda maiores em vida. Desta forma, é muitíssimo mais fácil preservar a dor e acolher no seio de nossas novas gerações o comodismo para com diversos problemas do que procurar enfrentá-los e abdicar nossa vida de malefícios intoleráveis e que poderiam ter sua resolução nos primeiros passos que damos fora do berço.
Somos fracos emocionalmente por natureza e apenas a presença das grandes sofreguidões nos fazem acolher o que de bom é em seu mínimo tamanho e momentaneamente ignorado. Quando sofremos, raramente buscamos a alegria. Desejamos que o mundo esteja ao nosso passo e, por isso, o sentimento vazio tarda a evaporar. Um exemplo de caráter bem clichê seria a maneira como escolhemos músicas: na alegria, as músicas de ritmo lento e letras profundas possuem o mesmo efeito que as alegres, enquanto na tristeza, apenas as de ritmo deprimente agradam. É um egocentrismo escondido que habita os escombros do prazer da tristeza. Não se trata de masoquismo ou mesmo de fraqueza, trata-se de uma quimera antiguíssima do homem, que iniciou quando as primeiras trocas de bens e produtos foram feitas, tornando seu consumo predominante e necessário em nossas vidas. Em outras palavras, ao alcançarmos o topo da montanha, desejamos chegar ao céu. Alguns piegas às vezes são a melhor forma de explicar as coisas.
Permeiam no solo da terra zilhões de suposições em relação à tristeza. Creio que haja a tristeza nata e a inata. Sim, existe a que nasce conosco, persegue-nos por toda a vida - contrariando a genética - e acaba por ser nossa amiga. É uma tristeza calma, algo que surge nos mínimos aspectos da vida, profundamente depressivos e letais. Outra, talvez mais forte, é a que surge no decorrer de nossa existência. Essa, se em conjuntura com outros problemas, rende boas reclamações e vícios.  Em nossa condescendência, os mais distintos sonares de sentimentalismo ecoam vozes inesperadas que vagam por nossa mente incansável em busca de uma pequena razão. Jamais busquei razões, geralmente as detesto por tão vagas que são. Não gosto, então, de coisas vagas, sem conteúdo - esqueçam o conteúdo do ser humano, jamais contestei tal valor- e, supõe-se, que há algum preenchimento em minha cabecinha oca. É aí, então, que nego meu ser, visto que não creio que haja muito que se constar neste impolido corpo.
Sei apenas que, apesar dos tantos presentes felizes e idealizações inalcançáveis, a tristeza é presente nos cantos da calçada e nos cacos de vidro pela casa, mesmo quando se escuta o riso fraco de um início ou a negação de um final.

Lígia Portela Schipper; segunda-feira, 17 de maio de 2010