quarta-feira, 26 de maio de 2010

La cafétéria

O hálito criava sorrisos na janela que logo desapareciam com o frio próspero da primavera. Sim, naqueles dias, mesmo no aguardo do inverno, já se podia enrolar nas cobertas e permanecer tempo maior na cama durante a manhã, antes da aula, faltando-a diversas vezes por amar o frio e temer o abandono dos calorosos cobertores.

Em uma tarde qualquer os sorrisos ganharam nova pousada: um café no Centro da cidade, em frente ao Fórum e no cume do aconchego. O cappuccino era glorioso e o andar de cima calmo como a espera pelos dias possuidores das mais baixas temperaturas. Das duas janelas grandessíssimas podíamos observar a correria dos moradores ambulantes do Fórum e a pressa com que as vidas passavam pela calçada. Havia uma mesa especial que ocupávamos, raramente utilizávamos outra. Ela era marcada pelo canto onde estava e paisagem que acomodava. O espetáculo aprumado da vida caminhava despercebido à nossa frente sem encarar-nos; enfim, observávamos e não atuávamos. Não éramos o centro do mundo, entretanto, o mundo não era nosso centro: os problemas penetravam o ambiente apenas com nossa autorização, sendo concedido a eles tempo e palavras vindas de nosso âmago em busca de um ensejo para despistá-los. É claro que, devido ao meu caráter, jamais tive audácia suficiente que os fizesse esperar na porta da frente da parte de baixo do Café. O bônus era evidente nos traçados que carregava o interior do estabelecimento, tornando-se aveludados e modeláveis.

As mesas foram se distinguindo das paredes e então retornando às suas cores originais, como o marrom. Algumas, beges, eram maiores para os grandes grupos que por ali repousavam, apreciavam o café, ingeriam a saborosa torta de limão ou degustavam dos assados, fritos, doces, etc, sempre provando da nicotina. As anedotas, a seriedade, a paixão pelo sabor, a calmaria e a tensão fundiam-se em um mármore de colóquios indistinguíveis. O inverno chegou, as pessoas chegavam em ainda maior número e permaneciam com seus diálogos. As insubstituíveis horas trouxeram relações enigmáticas e simplórias adentro das paredes marrons. Foi então que, mesmo lá, passamos a ser observados. A existência, em suas sociais relações, cobrou-nos o relatório do novo, do desconhecido, da inserção nos diversos grupos e na qualidade deles. De fato, eram bastante aprazíveis e costumeiras as visitas – ainda mais frequentes – ao local. Foi assim que, como se o despertador tocasse inesperadamente em nossa ilusão adormecida, a realidade ofereceu-nos o saber e o reconhecimento de que um ano se passara.

A nostalgia de hábitos deslembrados surgiu quando o odor do café tornou-se mais forte e no contemplar das mesas vazias percebi que já não havia uma em especial. Em cada cadeira, breves ou extensos momentos de contentamento ou amargura foram compartilhados, trocando de lugar como numa roda viva, apreciando, como cigana, cada sentido e, acima de tudo, possuindo a certeza de haver – em uma cidade tão pacata – refúgio tão surreal. Tudo adquiriu nova forma: nossos conceitos, nosso físico, roupas, olhares, pensamentos, escritos, desenhos; o lugar foi redecorado de gente e de enfeites. Porém, no toque infinito e ignorante da vida que passava pela janela, jamais esquecemos o que fomos e deixamos de saudar um passado, talvez lastimável, que nos encaminhou até ali.


Aqui vai uma foto do local original.

Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 26 de maio de 2010