domingo, 30 de maio de 2010

Desentendidos: se não souberem, não tentem inserir-se! É frustrante. Tão irritantes quanto os desentendidos são os que  não pensam e os que não fazem jus aos propósitos principais e iniciais das coisas. Ah, estes dão-me náuseas!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

La cafétéria

O hálito criava sorrisos na janela que logo desapareciam com o frio próspero da primavera. Sim, naqueles dias, mesmo no aguardo do inverno, já se podia enrolar nas cobertas e permanecer tempo maior na cama durante a manhã, antes da aula, faltando-a diversas vezes por amar o frio e temer o abandono dos calorosos cobertores.

Em uma tarde qualquer os sorrisos ganharam nova pousada: um café no Centro da cidade, em frente ao Fórum e no cume do aconchego. O cappuccino era glorioso e o andar de cima calmo como a espera pelos dias possuidores das mais baixas temperaturas. Das duas janelas grandessíssimas podíamos observar a correria dos moradores ambulantes do Fórum e a pressa com que as vidas passavam pela calçada. Havia uma mesa especial que ocupávamos, raramente utilizávamos outra. Ela era marcada pelo canto onde estava e paisagem que acomodava. O espetáculo aprumado da vida caminhava despercebido à nossa frente sem encarar-nos; enfim, observávamos e não atuávamos. Não éramos o centro do mundo, entretanto, o mundo não era nosso centro: os problemas penetravam o ambiente apenas com nossa autorização, sendo concedido a eles tempo e palavras vindas de nosso âmago em busca de um ensejo para despistá-los. É claro que, devido ao meu caráter, jamais tive audácia suficiente que os fizesse esperar na porta da frente da parte de baixo do Café. O bônus era evidente nos traçados que carregava o interior do estabelecimento, tornando-se aveludados e modeláveis.

As mesas foram se distinguindo das paredes e então retornando às suas cores originais, como o marrom. Algumas, beges, eram maiores para os grandes grupos que por ali repousavam, apreciavam o café, ingeriam a saborosa torta de limão ou degustavam dos assados, fritos, doces, etc, sempre provando da nicotina. As anedotas, a seriedade, a paixão pelo sabor, a calmaria e a tensão fundiam-se em um mármore de colóquios indistinguíveis. O inverno chegou, as pessoas chegavam em ainda maior número e permaneciam com seus diálogos. As insubstituíveis horas trouxeram relações enigmáticas e simplórias adentro das paredes marrons. Foi então que, mesmo lá, passamos a ser observados. A existência, em suas sociais relações, cobrou-nos o relatório do novo, do desconhecido, da inserção nos diversos grupos e na qualidade deles. De fato, eram bastante aprazíveis e costumeiras as visitas – ainda mais frequentes – ao local. Foi assim que, como se o despertador tocasse inesperadamente em nossa ilusão adormecida, a realidade ofereceu-nos o saber e o reconhecimento de que um ano se passara.

A nostalgia de hábitos deslembrados surgiu quando o odor do café tornou-se mais forte e no contemplar das mesas vazias percebi que já não havia uma em especial. Em cada cadeira, breves ou extensos momentos de contentamento ou amargura foram compartilhados, trocando de lugar como numa roda viva, apreciando, como cigana, cada sentido e, acima de tudo, possuindo a certeza de haver – em uma cidade tão pacata – refúgio tão surreal. Tudo adquiriu nova forma: nossos conceitos, nosso físico, roupas, olhares, pensamentos, escritos, desenhos; o lugar foi redecorado de gente e de enfeites. Porém, no toque infinito e ignorante da vida que passava pela janela, jamais esquecemos o que fomos e deixamos de saudar um passado, talvez lastimável, que nos encaminhou até ali.


Aqui vai uma foto do local original.

Lígia Portela Schipper; quarta-feira, 26 de maio de 2010

domingo, 23 de maio de 2010

Le Moulin de La Galette


Ventania solta no céu azul ao entardecer manchado pelas nuvens carregadas. Dedos paralisados pelo gélido inverno soado pelas andorinhas. Nada além de sua enxada e o árduo trabalho diário que tanto lhe era necessário.
No acalanto da vida, sinfonia desmedida, retornava em seu passado com notória saudade. O afago da mulher na choupana mal acabada encorajava-o a resistir à sofreguidão. Suas venturas demasiado aparentes não lhe serviam de consolo tanto quanto à hora do moinho. À hora do moinho era o corriqueiro desdobrar das grandes sacolas recheadas de trigo que o fazendeiro resguardava no interior do moinho. Sua vida, encenada pela melodia de um colher durante as manhãs iluminadas do campo, lembrava a suavidade das beiradas na plantação. Sua esposa o acompanhara desde seus remotos doze anos de idade, quando se conheceram em frente ao moinho de seu falecido pai.
As árvores trôpegas observaram cada nascer e morrer da existência nas almas dos que às rodeavam. O primeiro assassinato ocorrente naquele local fora a ausência da filha mais nova do casal de campeiros que aos dezesseis anos de idade os abandonara devido ao prazer da pesca. Numa noite chuvosa, resolveu pescar e despediu-se da família juntando-se aos peixes. A segunda vez foi ainda mais temerosa: a mulher que engravidou perdeu seu filho depois de cair do moinho azul. Queria consertar uma tábua que havia sido movida para a direita devido à força da ventania do dia anterior e acabou por cair, enterrando na terra o vermelho triste de uma história morta.  
No efêmero olhar dos que abandonaram a fértil terra ficava aquele rodear incessante do moinho quando o vento era eficaz. De fato, teceram sua história ao cercar das hastes do lugar onde transformavam o trigo em farinha. Assim como suas vidas foram sendo modificas e transformadas, o que gerava força para continuá-lo cessou. O conserto era caro e vinha de longe, não havia quem pudesse pagar por ele. O moinho parado desdenhava seus proprietários com altivez, como que querendo lembrá-los de que um dia não haveria mais em que esperançar-se para o amanhecer. 
Ardia na chama de suas quimeras um fogo que foi enxaguado pela água suja de suas mazelas. Quando não havia nada além de suspiros forçados e piscadelas derradeiras, coisa nenhuma restou; tudo sucumbiu. A valsa de suas vidas foi encerrada com destreza: o vento retornou ao moinho, mas a enxada não...
Lígia Portela Schipper; 26 de abril de 2010

Memories


As linhas delineadas nos velhos diários saudosos da infância traçaram muito mais do que momentos corriqueiros ou estapafúrdios: carregaram em suas letras a emoção sentida em cada acontecimento, podendo transpassar o limite do tempo e perpetuar seus impactos.
É desta forma que hoje, 23 de maio de 2010, pude sentir cada sensação que, anos atrás, foram vivenciadas pela esmeralda de meus olhos. Em cada linha narrada por minha prima e confidente, podia relembrar dos gestos e gostos de um tempo perdido nas gavetas desorganizadas da memória. Uns ou outros não puderam ser previamente identificados, porém, imagens transportavam para uma época em que as grandes preocupações rondavam o lugar onde eu passaria o fim de semana, a quantidade de abraços que eu daria em meus amigos ou mesmo o sucesso destes em seus aspectos físicos e emocionais. Saudade. Havia muito mais valorização, sinceridade e ternura nas simples palavras e nos gratuitos erros de português, abreviações e símbolos que marcavam o nome dos coadjuvantes de minha peça imaginária e surreal. A vida era um mistério a ser desvendado, não um penar eterno de desilusões.
Cores vívidas ainda permeiam de minhas afirmações e negações, descrições e sentimentos nocauteadores de uma pré-adolescência faceira. Talvez houvessem sinais de que as nuvens nem sempre permaneceriam no céu, bem como não pude notar a tradicional crença na perfeição e felicidade da Vida. Em meus próprios julgamentos, os contrastes são evidentes: uns e outros eram, em minha visão juvenil, imaturos para sua idade. Citei até mesmo a utilização da ética no decorrer da vida! Que mera criança seria essa que criticava estilos e credos em plena e pueril juventude? Era eu. Era meu ser que gritava ao mundo a presença de alguém, não de alguma coisa. E essa pessoa apagada pelo tempo - ou completada por ele, como quiser - findou sua história com a sofreguidão daquilo que já esperava diante do apreço pelos mais banais fatos.
Havia o desejo, a certeza e a dúvida. Porém, não havia o medo. O medo era inexistente, as certezas eram infinitas e a dúvida esperava por uma resposta que - certamente - deveria haver. Corroboram tais questões os pensamentos de afeto e presunção que despontavam em meus 11 anos. Já naqueles minutos dedicados aos meus diários eu possuía o conhecimento de que, um dia, meu âmago riria cômico do que eu narrava, mas, ainda assim, cada minuto teria valido à pena, cada toque teria me feito derradeiramente feliz e cada olhar teria dado às minhas perguntas, respostas, mesmo que vazias, conflitantes. As primeiras experiências, as últimas confissões, tudo o que foi finito está contido nas folhas coloridas e cheias de vida de meus cadernos ambulantes. Impagável, insubstituível, infinito.
Por isso, meu corpo não resguardava uma mente tão ignóbil, inócua, quanto pensava. Alguns possuem o extremo de suas mazelas na sexta série, quando, após dedicar-se ao estudo, superam a apreensão da nota baixa. Hoje, nossos limites percorrem o campo dos exageros, dos grandes e dos pequenos, dos absurdos e aceitáveis, do intolerante e do agradável. A conquista não envolvia o prêmio, envolvia seu percorrer e suas formas. Malditas indagações que adentraram a verdade humana.
O apontamento de certos credos alertava para alguns de meus futuros problemas: baixa auto-estima, coragem ou mesmo crítica daquilo que era. Tão minúsculas descrições surgiam talvez até ignoráveis como se em nada afetassem meu caráter. Hoje, para tristeza dos que nos rodeiam, os pilares de nossos problemas demonstram-se mais límpidos e antigos que suas primeiras aparições. A infância, onde meu preenchimento foi feito, decretou um meio e um social superiores ao que vivi. Transformei-me, não apenas cresci.
Não atingi tudo aquilo que há de supremo, permaneço sem rugas, todavia, a mudança prescreveu cada milésimo de minha história. Raramente encontrarei vestígios do que fui naquela em que me transformei. Apesar de tudo, até mesmo em tão antiga época, tinha consciência de que havia em mim alguém que se transformaria no que hoje sou.

Adeus, querido diário...

Lígia Portela Schipper; domingo, 23 de maio de 2010

sábado, 22 de maio de 2010

Em um mundo tão metódico como o de hoje, sonhar tornou-se mais do que a imaginação de um futuro ou acontecimentos agradáveis que possivelmente nos trariam a felicidade. Nossos desejos são sugados pela maneira como devemos sistematizar a vida. Assim, pouco a pouco, resta-nos o conformismo de que nossas quimeras são utópicas quando, na realidade, somos impossibilitados de transformar certas facilidades em realidade. É triste nascer pássaro dentro da gaiola. Vou tentar me enganar. Vou tentar ser feliz.

(só espero não tornar-me ignorante)

Lígia P. Schipper; domingo, 23 de maio de 2010

Não

Sou o Não: o não sei, não vi, não ouvi
O não tenho medo, não tenho coragem, o não sorri.
O Não me corrói todos os dias como se fosse um sim:
Sim para a tristeza, para o desassossego
Um sim que é não, não e sim, aqui.
Lígia Portela Schipper; terça-feira, 20 de abril de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

La noyée


Tristeza: por que tão belo é tão devasso sentimento? De onde, em tua amargura, vem tal encanto que posiciona-nos de forma que abrimos mão de um sorriso simplório e cálido por um breve momento de “choratéu”? Sim, nos agrada a tristeza, nos agrada o penar a nós mesmos e a depressão.
Quando pequenos as cantigas de ninar nos soam assombrosas, para dormirmos é necessário um canto de medo, glorioso vencer do penar, coisa tal que nos faça abotoar o sono e, por fim, acordar apenas quando o sol raiar. Ao induzir-nos para dormir utilizando da cuca que irá nos pegar ou mesmo da rua que desejamos ladrilhar, incentivamos inocentemente o preparo para dores e temores ainda maiores em vida. Desta forma, é muitíssimo mais fácil preservar a dor e acolher no seio de nossas novas gerações o comodismo para com diversos problemas do que procurar enfrentá-los e abdicar nossa vida de malefícios intoleráveis e que poderiam ter sua resolução nos primeiros passos que damos fora do berço.
Somos fracos emocionalmente por natureza e apenas a presença das grandes sofreguidões nos fazem acolher o que de bom é em seu mínimo tamanho e momentaneamente ignorado. Quando sofremos, raramente buscamos a alegria. Desejamos que o mundo esteja ao nosso passo e, por isso, o sentimento vazio tarda a evaporar. Um exemplo de caráter bem clichê seria a maneira como escolhemos músicas: na alegria, as músicas de ritmo lento e letras profundas possuem o mesmo efeito que as alegres, enquanto na tristeza, apenas as de ritmo deprimente agradam. É um egocentrismo escondido que habita os escombros do prazer da tristeza. Não se trata de masoquismo ou mesmo de fraqueza, trata-se de uma quimera antiguíssima do homem, que iniciou quando as primeiras trocas de bens e produtos foram feitas, tornando seu consumo predominante e necessário em nossas vidas. Em outras palavras, ao alcançarmos o topo da montanha, desejamos chegar ao céu. Alguns piegas às vezes são a melhor forma de explicar as coisas.
Permeiam no solo da terra zilhões de suposições em relação à tristeza. Creio que haja a tristeza nata e a inata. Sim, existe a que nasce conosco, persegue-nos por toda a vida - contrariando a genética - e acaba por ser nossa amiga. É uma tristeza calma, algo que surge nos mínimos aspectos da vida, profundamente depressivos e letais. Outra, talvez mais forte, é a que surge no decorrer de nossa existência. Essa, se em conjuntura com outros problemas, rende boas reclamações e vícios.  Em nossa condescendência, os mais distintos sonares de sentimentalismo ecoam vozes inesperadas que vagam por nossa mente incansável em busca de uma pequena razão. Jamais busquei razões, geralmente as detesto por tão vagas que são. Não gosto, então, de coisas vagas, sem conteúdo - esqueçam o conteúdo do ser humano, jamais contestei tal valor- e, supõe-se, que há algum preenchimento em minha cabecinha oca. É aí, então, que nego meu ser, visto que não creio que haja muito que se constar neste impolido corpo.
Sei apenas que, apesar dos tantos presentes felizes e idealizações inalcançáveis, a tristeza é presente nos cantos da calçada e nos cacos de vidro pela casa, mesmo quando se escuta o riso fraco de um início ou a negação de um final.

Lígia Portela Schipper; segunda-feira, 17 de maio de 2010