domingo, 25 de abril de 2010

Ne Réveillez Pas


História com dois finais.

Eram 12h00min da madrugada quando o despertador foi lançado à parede com bravura pela furiosa mão do meio irmão de Julie. Era hora de iniciar seu trabalho adolescente às avessas: vigiava uma boate noturna até as seis horas da manhã, quando, lutando contra todos os seus demônios, retornava ao lar e vestia-se para a escola.

Qualquer um que tivesse o sono tão leve quanto o da pequenina Ju despertaria aos prantos a família toda. A compreensão da mãe viúva para com sua jovem era provinda da delicadeza e doçura para com a vida, ao contrário de seu bossal ex-marido falecido há dois dias que porventura havia deixado como herança a rispidez do gênero para Jonas, o filho do meio. Os nomes desta família brotaram da mais pueril escolha que partiu de uma regra: o uso indubitável da décima letra do alfabeto. O filho mais velho chama-se João Pedro; este, por sua vez, carregava a doçura herdada da mãe com a insensatez do pai, o que esculpia em sua personalidade diversos temores e equívocos, bem como enganos e falsidades. Sua insegurança triplicava com o choro de Julie – que a esta altura se pode deduzir que obtinha em seu âmago nada além da delicadeza da mãe e poucos traços físicos do pai - provocando nele os desejos efêmeros que se rendiam aos acessos de raiva de Jonas.

Naquela noite não havia tolerância no cérebro do segundo irmão para que aceitasse tal afronta vinda de sua irmã. Não tardou para que os gritos fossem sensíveis aos ouvidos do mais desejoso de sons ao profundamente adormecido. A cidade que antes sussurrava tranquilidade, agora era tenra ao agudo sonar da mãe e ao estridente som dos irmãos. Na orquestra desregulada em meio à penumbra, Julie caiu de sua simplória cama e deixou esparramar-se pelo chão. Sem denotar tal acontecimento, o mais velho dos irmãos pisoteou seu infantil braço e não deu por conta da elevação no piso. Sucessivamente, os três membros da família a pisotearam sem conhecimento de seus atos, totalmente levados por seu irracional que atuava perpetuante.

Deveras insaciável o ser humano: quando um se cala, o outro grita. Assim foi durante duas horas, quando o cessar da discussão levou-os ao requerimento de um abraço forte e sincero como família. O desfiar do tempo decidiu que Jonas não frequentasse seu trabalho, o acalmar das vozes fez surgir em João sua doçura para com o irmão e a mãe. A mãe, entretanto, emergiu de seu transe e chamou pela filha. Esta estava estirada e encostada na parede pintada por um vermelho culpa. No chão, com o olhar vazio e as mãos frias, a delicada Julie não chorava ou sorria, apenas descansava.

Como história sem pé nem cabeça, sua mãe agarrou-a ao colo, mostrou-a aos irmãos como num batismo e em pé ficaram.

- Devemos levá-la ao hospital? - sugeriu João.
- Deixe que descanse, estava cansada mesmo. - disse a mãe.

E, assim, com o badalar do relógio daquela ignorante família do interior, ouviu-se um burburinho na cozinha:

Dorme, minha pequena, não vale à pena despertar...

Segunda Versão;

(...) Naquela noite não havia tolerância no cérebro de Jonas para que aceitasse tal afronta vinda de sua irmã. Não tardou para que os gritos fossem sensíveis aos ouvidos do mais desejoso de estrondos aos profundamente adormecidos. A cidade que antes sussurrava tranquilidade agora era tenra ao agudo sonar da mãe e estridente som dos irmãos. Na orquestra desregulada em meio à penumbra, guiado pela cólera, as ideias da devastadora alma daquele que era idêntico ao pai, o levou a perfurar o peito do irmão mais velho que, antes cálido, agora era frívolo. Atordoado, esbravejou contra a mãe e vingou os anos de frustração que o haviam detido em todos os sentidos possíveis com outra facada. Por fim, sem forças para aceitar a desgraça que havia causado, repugnou seu próprio ser e manchou o carpete com um vermelho ódio.
            O relógio badalou seis horas da manhã; horário matinal para a primeira refeição da inócua Julie. Porém, sem ter quem a acordasse, apenas às sete horas abriu os olhinhos para o sol que raiava e cegava. Na profundeza de sua imaginação pensou não ter o poder para despertar a casa e saciar a fome. Em seus sensíveis ouvidos apenas deleitou-se com a mistura de quatro vozes intangíveis e incompreensíveis:
- Dorme minha pequena, não vale à pena despertar...
Lígia Portela Schipper; terça-feira, 20 de abril de 2010