segunda-feira, 26 de abril de 2010

Aquarela

Desde que as fraldas lhe eram necessárias e os vestidos tesouros belos e longos demais para serem sonhados, a cálida moça resguardava o ímpeto de tornar-se pintora. Coloria os vasos negros da sala no vazio alvo da tela aguardando o tênue ranger da porta por onde sua mãe adentrava a casa com as mais alegres cores de tinta a óleo. Ambas festejavam. Ambas sorriam e levitavam no ardor de um presente sincero.

A saudade viria derradeira, atroz, silenciosa. A maestria de seus quadros impressionava os mais dedicados dos artistas, deslumbrava os leigos e inspirava os aspirantes. Pacholas; desdenhavam suas linhas com o pseudo-apresso momentâneo. Deveras árduo era seu dia: desviava das carolas na rua por não apreciar suas vestes, titubeava na calçada íngreme ao passo lento de um fitar, iludia-se, desiludia-se, enamorava-se e então se via só. A rotina era incessante, bem como os olhos negros de um ser que a apanhava por completo, roubando o sossego, a rotina, as pinturas e o prazer de receber as novas tintas.

Certa feita, na alvorada, empalideceu com os gestos mistos que um rapaz miúdo executava em frente a sua janela. Eram atordoantes e a deixavam angustiada, destruindo a efemeridade da manhã. O desmazelo com suas pinturas era evidente desde o abandono das chuvas tempestivas, visto que o inverno aquietara-se. “Vai passar”, pensava, mas não findava o olhar para a janela. Aos poucos suas horas foram consumidas e sorrateiramente a sua vida trancafiada junto da caixa de cores. Em seu cárcere privado, a donzelinha tornou-se imutável e deixou a inocuidade dos dias no passado como se a mais doce maçã já não fosse provida de suco.

Na bruma da manhã, ouviu o ranger da porta. Não houve festejo, sorrisos ou levitações. Ela foi pega pela mão direita e com a esquerda agarrou seu último quadro coberto por um véu bege que impedia sua análise. Embrenharam-se pela mata e então se viu, novamente, solitária. Cerrou os olhos, suas quimeras haviam sido enterradas no mais profundo depósito de ossos. Era moribunda, não lhe cabiam elogios. O talento foi desperdiçado e era desalento puro em sua alma. A perspicácia foi ternamente lavada junto da borra do café que nada disse sobre o futuro. Vivia inerte e alimentava-se de um passado glorioso. Despertou. No despertar encontrou a penumbra, na avassaladora senhora da natureza o medo e o tempo já não era um velho chato.

Por fim, mais uma vez ouviu o ranger da porta. Sentou-se na poltrona velha e aproximou o espelho aos seus olhos. As rugas precediam algo que lhe era espantoso e seus quadros não se podiam ver. Teve nostalgias de uma história que não possuiu: era velha bordadeira desde pequena e agora apenas aguardava. Aguardava o que? Oh, sim, esqueci-me. Logo depois do ranger, surgiu a sombra de um jovem e seu espanto tornou-se real. Incrédula, despediu-se das horas e teve certeza de que sua melhor pintura – coisa que nunca realizou – havia sido concluída enquanto adormecia.

Levitou...

Lígia Portela Schipper; terça-feira, 06 de abril de 2010