segunda-feira, 26 de abril de 2010

Alice

Havia nela os mesmos lábios de veludo, os cachos sedosos e a pele alva que aparecia na televisão. Os olhos também eram azuis como um paraíso desconhecido e curiosos como os de uma criança recém nascida. Usava um vestido igualmente azul e adornado de branco, bem como uma tiara preta que se destacava nas ondas claras de seus cabelos. Possuía estatura mediana e, ao contrário de sua adorada, não era uma nova menina de contos fantasiosos... era “Alice no País Sem Maravilhas”.


Aos seus vinte e um anos havia experimentado tudo quanto era bom e ruim que um ser humano possa provar. Hostilidade, façanha e covinhas no rosto com sinceridade. Absorveu o mar, o sol e as nuvens, tal como a solidão e a companhia, o silêncio e as palavras ignóbeis. Ainda havia em sua face algo de infantil, talvez serenidade e esperança que denotavam a fragilidade de seu corpo e mente. Apesar de teimosa, era tão doce quanto às maçãs que colhia de seu jardim ao final do outono, saciando seu apetite. Com frescor, ainda que maltrapilho, corria pelas ruas da metrópole como um cão abandonado em busca de novos donos. Era livre e destemida. Em meio a tanta escuridão, surgia a figura da belíssima jovem para animar os bêbados e os padres, os surdos e os mudos, os cegos e os que não queriam ver. Arrancava facilmente sorrisos de seus observadores, acariciava os animais durante o dia e descansava na pequenez de sua choupana durante as madrugadas de inverno. Levava uma vida tranquila, pacífica e esperançosa. Vivia, não era mais uma sobrevivente da massificação da estupidez ou dos dogmas corrompidos; era apenas ela, nada mais.


Eis que certa vez encontrou-se sozinha em meio à mata virgem e exaltou sua beleza noturna como raramente fazemos com a natureza, contudo, logo nada se via além da colossal lua que procurava seguir-lhe em cada passo para não perder-se. Pena que os boatos sobre aquele lugar não eram agradáveis. Diziam que os que ali pisassem durante a parte sombria das semanas seriam esquecidos e dados como mortos, visto que o retorno era impossível. 

Titubeou uma ou duas vezes a menina que com seus delicados pezinhos sentiu na terra elevações de caráter não identificado por seus encurtados conhecimentos e assustou-se. Mortificada de medo, deu dois passos para trás e encontrou-se com um velho cipreste. Ainda mais sua respiração era ofegante e suas mãos úmidas, quando - como que por mágica - avistou sua velha cabana iluminada por vaga-lumes dançantes que expunham coreografias magníficas e encantavam a moça.


Aos passos largos, apressada e ansiosa, ela entrou na cabana, no entanto não se sentiu dentro dela. Desta vez estava em meio a um campo florido, coberto por violetas, orquídeas e demais plantas que exalavam os mais agradáveis odores já sentidos pelo homem. Logo era dia e ela viu-se em frente a um grande lago, onde os raios do sol refletiam na água cristalina provocando efeitos magníficos e formas indescritíveis, verdadeiro júbilo para sua visão. Por um momento ela esqueceu-se de seu passado tempestuoso, dos pormenores que a faziam lamentar e mesmo de si e de sua condição. Era a plenitude da paz que a convidava para bailar sobre as águas e fazer de seus dias, dias completos.


A manhã esvaiu-se, a tarde do mesmo modo, dando lugar a madrugada que já findava. Alguns camponeses que diariamente passavam pela cabana e ofereciam a ela leite e pão não contiveram a curiosidade e adentraram-na depois de sucessivas batidas não respondidas na porta. Lá, como se há dias dormisse, estava a jovem Alice, sem o rubor das bochechas e o olhar curioso costumeiro. Foi então que todos compreenderam e o dia amanheceu plácido: ela havia encontrado suas maravilhas.


Lyz; quinta-feira, 14 de janeiro de 2010