terça-feira, 27 de abril de 2010

Ictu Oculi

Se os olhos captassem e arquivassem as paisagens cotidianas haveria um álbum repleto de encantamentos à disponibilidade de todos. Porém, não há click ou flash da íris para o mundo, redecorando minha memória e tornando-a parede fotográfica.
Talvez eu devesse exaltar minha sorte por ter todas estas cenas extraordinárias apenas para meu deleite; entretanto, desejo subir numa camionete velha e espalhá-las pelas ruas como presentes inesperados da vida. Afinal, o orgulho guarda a sabedoria para si, enquanto a sensatez procura resolver (sabendo da ineficiência) qualquer coisa. Há uma tristeza cortante que provoca ardor e tremedeira. Busco incessantemente sua origem e uma solução. Encontro névoa, branquidão que ofusca as cenas e distorce a mente. Escorrego num monte lamacento desejando encontrar os pés com o chão... de pedra.
O dia ilumina as folhas cor de abacate e confunde as luzes do quarto desapropriado, pertencente a uma velha viúva dedicada. Vida pacata, morbidez exemplar. A neta procura algo novo, inexorável, restaurador. Encontra sonhos inacabados, futuros planejados pelos pais ausentes e um pouco de revolta. Indaga, bate o pé, o tempo passa e a chupeta perde-se atrás da estante. Não deseja viver aquilo que ninguém vivera, conquistar aquilo que não conquistaram ou ser aquilo que não foram. A máquina de costura velha, prateada e desgarrada, reflete a vida singela de alguém que falou, andou e pensou como queriam que o fizesse. Morreu triste? Não, não morreu. A ignorância presenteia seus acolhedores com o possível maior júbilo terreno: a felicidade.
Ligando os pontos deste desfiladeiro, digo-vos que a garota de olhos azuis e ruivos cabelos de seda pertencia ao que chamamos de esquecimento. Quando pequena fora esquecida pelos pais e depois pela escola; esqueceram-se dela ao desabitar a cidade natal, o antigo emprego e o tempo. Mas, quem mais a esqueceu foi Deus, sendo que deste já duvidava da existência. Crês em um? Ela não mais o idealizava e lhe fazia súplicas. Morreu velha, dona da máquina de costura e dos resquícios que teceu na mocidade.
Restaram, em algum lugar da ladeira lamacenta, tecidos feitos de sonhos inférteis e carentes de ambição para realizarem-se. Quem dera os olhos tivessem captado a imagem furtiva daquela moça ao sorrir despreocupada perante os raios de sol, transparecer brilho ao tornar-se efusiva e resguardar suas fotos existenciais na parede da estação.

Lígia Portela Schipper. Terça-feira, 13 de outubro de 2009.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Alice

Havia nela os mesmos lábios de veludo, os cachos sedosos e a pele alva que aparecia na televisão. Os olhos também eram azuis como um paraíso desconhecido e curiosos como os de uma criança recém nascida. Usava um vestido igualmente azul e adornado de branco, bem como uma tiara preta que se destacava nas ondas claras de seus cabelos. Possuía estatura mediana e, ao contrário de sua adorada, não era uma nova menina de contos fantasiosos... era “Alice no País Sem Maravilhas”.


Aos seus vinte e um anos havia experimentado tudo quanto era bom e ruim que um ser humano possa provar. Hostilidade, façanha e covinhas no rosto com sinceridade. Absorveu o mar, o sol e as nuvens, tal como a solidão e a companhia, o silêncio e as palavras ignóbeis. Ainda havia em sua face algo de infantil, talvez serenidade e esperança que denotavam a fragilidade de seu corpo e mente. Apesar de teimosa, era tão doce quanto às maçãs que colhia de seu jardim ao final do outono, saciando seu apetite. Com frescor, ainda que maltrapilho, corria pelas ruas da metrópole como um cão abandonado em busca de novos donos. Era livre e destemida. Em meio a tanta escuridão, surgia a figura da belíssima jovem para animar os bêbados e os padres, os surdos e os mudos, os cegos e os que não queriam ver. Arrancava facilmente sorrisos de seus observadores, acariciava os animais durante o dia e descansava na pequenez de sua choupana durante as madrugadas de inverno. Levava uma vida tranquila, pacífica e esperançosa. Vivia, não era mais uma sobrevivente da massificação da estupidez ou dos dogmas corrompidos; era apenas ela, nada mais.


Eis que certa vez encontrou-se sozinha em meio à mata virgem e exaltou sua beleza noturna como raramente fazemos com a natureza, contudo, logo nada se via além da colossal lua que procurava seguir-lhe em cada passo para não perder-se. Pena que os boatos sobre aquele lugar não eram agradáveis. Diziam que os que ali pisassem durante a parte sombria das semanas seriam esquecidos e dados como mortos, visto que o retorno era impossível. 

Titubeou uma ou duas vezes a menina que com seus delicados pezinhos sentiu na terra elevações de caráter não identificado por seus encurtados conhecimentos e assustou-se. Mortificada de medo, deu dois passos para trás e encontrou-se com um velho cipreste. Ainda mais sua respiração era ofegante e suas mãos úmidas, quando - como que por mágica - avistou sua velha cabana iluminada por vaga-lumes dançantes que expunham coreografias magníficas e encantavam a moça.


Aos passos largos, apressada e ansiosa, ela entrou na cabana, no entanto não se sentiu dentro dela. Desta vez estava em meio a um campo florido, coberto por violetas, orquídeas e demais plantas que exalavam os mais agradáveis odores já sentidos pelo homem. Logo era dia e ela viu-se em frente a um grande lago, onde os raios do sol refletiam na água cristalina provocando efeitos magníficos e formas indescritíveis, verdadeiro júbilo para sua visão. Por um momento ela esqueceu-se de seu passado tempestuoso, dos pormenores que a faziam lamentar e mesmo de si e de sua condição. Era a plenitude da paz que a convidava para bailar sobre as águas e fazer de seus dias, dias completos.


A manhã esvaiu-se, a tarde do mesmo modo, dando lugar a madrugada que já findava. Alguns camponeses que diariamente passavam pela cabana e ofereciam a ela leite e pão não contiveram a curiosidade e adentraram-na depois de sucessivas batidas não respondidas na porta. Lá, como se há dias dormisse, estava a jovem Alice, sem o rubor das bochechas e o olhar curioso costumeiro. Foi então que todos compreenderam e o dia amanheceu plácido: ela havia encontrado suas maravilhas.


Lyz; quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Aquarela

Desde que as fraldas lhe eram necessárias e os vestidos tesouros belos e longos demais para serem sonhados, a cálida moça resguardava o ímpeto de tornar-se pintora. Coloria os vasos negros da sala no vazio alvo da tela aguardando o tênue ranger da porta por onde sua mãe adentrava a casa com as mais alegres cores de tinta a óleo. Ambas festejavam. Ambas sorriam e levitavam no ardor de um presente sincero.

A saudade viria derradeira, atroz, silenciosa. A maestria de seus quadros impressionava os mais dedicados dos artistas, deslumbrava os leigos e inspirava os aspirantes. Pacholas; desdenhavam suas linhas com o pseudo-apresso momentâneo. Deveras árduo era seu dia: desviava das carolas na rua por não apreciar suas vestes, titubeava na calçada íngreme ao passo lento de um fitar, iludia-se, desiludia-se, enamorava-se e então se via só. A rotina era incessante, bem como os olhos negros de um ser que a apanhava por completo, roubando o sossego, a rotina, as pinturas e o prazer de receber as novas tintas.

Certa feita, na alvorada, empalideceu com os gestos mistos que um rapaz miúdo executava em frente a sua janela. Eram atordoantes e a deixavam angustiada, destruindo a efemeridade da manhã. O desmazelo com suas pinturas era evidente desde o abandono das chuvas tempestivas, visto que o inverno aquietara-se. “Vai passar”, pensava, mas não findava o olhar para a janela. Aos poucos suas horas foram consumidas e sorrateiramente a sua vida trancafiada junto da caixa de cores. Em seu cárcere privado, a donzelinha tornou-se imutável e deixou a inocuidade dos dias no passado como se a mais doce maçã já não fosse provida de suco.

Na bruma da manhã, ouviu o ranger da porta. Não houve festejo, sorrisos ou levitações. Ela foi pega pela mão direita e com a esquerda agarrou seu último quadro coberto por um véu bege que impedia sua análise. Embrenharam-se pela mata e então se viu, novamente, solitária. Cerrou os olhos, suas quimeras haviam sido enterradas no mais profundo depósito de ossos. Era moribunda, não lhe cabiam elogios. O talento foi desperdiçado e era desalento puro em sua alma. A perspicácia foi ternamente lavada junto da borra do café que nada disse sobre o futuro. Vivia inerte e alimentava-se de um passado glorioso. Despertou. No despertar encontrou a penumbra, na avassaladora senhora da natureza o medo e o tempo já não era um velho chato.

Por fim, mais uma vez ouviu o ranger da porta. Sentou-se na poltrona velha e aproximou o espelho aos seus olhos. As rugas precediam algo que lhe era espantoso e seus quadros não se podiam ver. Teve nostalgias de uma história que não possuiu: era velha bordadeira desde pequena e agora apenas aguardava. Aguardava o que? Oh, sim, esqueci-me. Logo depois do ranger, surgiu a sombra de um jovem e seu espanto tornou-se real. Incrédula, despediu-se das horas e teve certeza de que sua melhor pintura – coisa que nunca realizou – havia sido concluída enquanto adormecia.

Levitou...

Lígia Portela Schipper; terça-feira, 06 de abril de 2010

domingo, 25 de abril de 2010

Ne Réveillez Pas


História com dois finais.

Eram 12h00min da madrugada quando o despertador foi lançado à parede com bravura pela furiosa mão do meio irmão de Julie. Era hora de iniciar seu trabalho adolescente às avessas: vigiava uma boate noturna até as seis horas da manhã, quando, lutando contra todos os seus demônios, retornava ao lar e vestia-se para a escola.

Qualquer um que tivesse o sono tão leve quanto o da pequenina Ju despertaria aos prantos a família toda. A compreensão da mãe viúva para com sua jovem era provinda da delicadeza e doçura para com a vida, ao contrário de seu bossal ex-marido falecido há dois dias que porventura havia deixado como herança a rispidez do gênero para Jonas, o filho do meio. Os nomes desta família brotaram da mais pueril escolha que partiu de uma regra: o uso indubitável da décima letra do alfabeto. O filho mais velho chama-se João Pedro; este, por sua vez, carregava a doçura herdada da mãe com a insensatez do pai, o que esculpia em sua personalidade diversos temores e equívocos, bem como enganos e falsidades. Sua insegurança triplicava com o choro de Julie – que a esta altura se pode deduzir que obtinha em seu âmago nada além da delicadeza da mãe e poucos traços físicos do pai - provocando nele os desejos efêmeros que se rendiam aos acessos de raiva de Jonas.

Naquela noite não havia tolerância no cérebro do segundo irmão para que aceitasse tal afronta vinda de sua irmã. Não tardou para que os gritos fossem sensíveis aos ouvidos do mais desejoso de sons ao profundamente adormecido. A cidade que antes sussurrava tranquilidade, agora era tenra ao agudo sonar da mãe e ao estridente som dos irmãos. Na orquestra desregulada em meio à penumbra, Julie caiu de sua simplória cama e deixou esparramar-se pelo chão. Sem denotar tal acontecimento, o mais velho dos irmãos pisoteou seu infantil braço e não deu por conta da elevação no piso. Sucessivamente, os três membros da família a pisotearam sem conhecimento de seus atos, totalmente levados por seu irracional que atuava perpetuante.

Deveras insaciável o ser humano: quando um se cala, o outro grita. Assim foi durante duas horas, quando o cessar da discussão levou-os ao requerimento de um abraço forte e sincero como família. O desfiar do tempo decidiu que Jonas não frequentasse seu trabalho, o acalmar das vozes fez surgir em João sua doçura para com o irmão e a mãe. A mãe, entretanto, emergiu de seu transe e chamou pela filha. Esta estava estirada e encostada na parede pintada por um vermelho culpa. No chão, com o olhar vazio e as mãos frias, a delicada Julie não chorava ou sorria, apenas descansava.

Como história sem pé nem cabeça, sua mãe agarrou-a ao colo, mostrou-a aos irmãos como num batismo e em pé ficaram.

- Devemos levá-la ao hospital? - sugeriu João.
- Deixe que descanse, estava cansada mesmo. - disse a mãe.

E, assim, com o badalar do relógio daquela ignorante família do interior, ouviu-se um burburinho na cozinha:

Dorme, minha pequena, não vale à pena despertar...

Segunda Versão;

(...) Naquela noite não havia tolerância no cérebro de Jonas para que aceitasse tal afronta vinda de sua irmã. Não tardou para que os gritos fossem sensíveis aos ouvidos do mais desejoso de estrondos aos profundamente adormecidos. A cidade que antes sussurrava tranquilidade agora era tenra ao agudo sonar da mãe e estridente som dos irmãos. Na orquestra desregulada em meio à penumbra, guiado pela cólera, as ideias da devastadora alma daquele que era idêntico ao pai, o levou a perfurar o peito do irmão mais velho que, antes cálido, agora era frívolo. Atordoado, esbravejou contra a mãe e vingou os anos de frustração que o haviam detido em todos os sentidos possíveis com outra facada. Por fim, sem forças para aceitar a desgraça que havia causado, repugnou seu próprio ser e manchou o carpete com um vermelho ódio.
            O relógio badalou seis horas da manhã; horário matinal para a primeira refeição da inócua Julie. Porém, sem ter quem a acordasse, apenas às sete horas abriu os olhinhos para o sol que raiava e cegava. Na profundeza de sua imaginação pensou não ter o poder para despertar a casa e saciar a fome. Em seus sensíveis ouvidos apenas deleitou-se com a mistura de quatro vozes intangíveis e incompreensíveis:
- Dorme minha pequena, não vale à pena despertar...
Lígia Portela Schipper; terça-feira, 20 de abril de 2010