terça-feira, 16 de agosto de 2016

o tempo (ainda)

- nossa, já é 16 de agosto.
como o tempo passa rápido... - murmurou; 

Lembrou-se da avó quando admirava os retratos da antiga Kodak e ela, para não perder o ritmo, acompanhava aqueles olhos cansados através do negativo.
O que sentia estava demasiado aquém da nostalgia delineadora do sorriso da senhorinha: enganchava-se curiosa por entre as paisagens, poses e a alegria espontânea com que, por instantes, a tristeza se calava.
Pensou, também, nas avós que tomou por empréstimo e que volta e meia relembravam da impetuosidade do tempo, demarcando suas vidas na mocidade a estender-se sob o tato de passagens umedecidas. Túneis obscuros até que a íris se adaptasse e pudessem ver que neles escondiam-se rosas entalhadas no mármore, tão vigorosas quanto as flores verdadeiras e tão enganosas quanto suas lembranças.
Quando não obstante, desejava-as vivas. Seu fado era conviver com suas partidas, mas sua teimosia há muito transformara as silhuetas, os jardins, os cafés e as palavras em instrumentos de seu delírio. 

- o tempo passa rápido demais. - pensou outra vez. 

Tão assustadoramente veloz que desistira de suas brincadeiras de percepção nas quais imaginava-se no futuro rememorando o passado que tão rapidamente dava lugar ao momento no qual haveria de se encontrar.

Já era hora de saborear qualquer fagulha de espaço que lhe era concedida.

16/08/2016

- nove anos e já dois dias há mais; sinto saudades.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

onde foi parar o ritmo?

enxugo, espremo, estendo os lençóis na janela e nada.
acho que a última vez em que pude realmente ver 
além dos galhos e das folhas rosadas
foi numa tarde agradável de setembro
em que parei de percorrer a casa freneticamente
em busca do que fazer.
sentei na cama
olhei pela janela
e desde então
desde que pude ver através daquelas grades
alguma coisa em mim ficou trancafiada
e luta
todos os dias
pra sair.

o que eu sinto,
quando relembro da facilidade com que podia
tocar sem agarrar ou
ser tocada e sentir
é o aperto piegas no peito de que o poeta fala
toda vez que escreve um poema sobre amor.

ao considerar os anos, os cafés, as tortas de limão
um que outro sorriso escancarado
ou
os meio sorrisos
- muitos falsos -
findando numa gororoba sem aroma, sem sabor
{tão piegas quanto o jargão do poeta}
concluo que não entendi bulhufas do que aconteceu.

o desejo de compreender tornou-se ideia fixa
que não é saciada com a vida
com a beleza
com a passagem ao ato.

piso na terra fofa
a prometer passos leves
e chafurdo
como chafurdei lá nos meus dezesseis.
tudo por um estopim obsessivo:
"talvez, agora, eu entenda o que aconteceu
nos últimos nove anos"
blá blá blá blá.

perdi o fio de Ariadne
e fiquei presa nas amolações
e arranjos que criei.
o preço disso foi
uma mente atrofiada
pesada
preguiçosa
que já não produz um terço
do que necessita para sobreviver subjetivamente.

não faço ideia se adentrei terrenos arenosos
de um embate natimorto
de conhecimentos inúteis
que não ultrapassam o diálogo social cotidiano
- e já nem me dou o trabalho de usar -
contra o que sou
[ou não sou
ou o que acho que sou]
e se devo persistir
aceitar
ou
destruir.

o fato é que
cansei de pintar
a mesma tela
com diferentes cores.
queria acordar
às cinco
ouvir o sabiá
os passos na cozinha
a brasa tiritando
a leiteira
os risinhos
(...)

a liberdade para Ser
para descobrir.
mas
nem mesmo consigo falar sobre isso
porque no final da noite
os ruídos se confundem
então,
por hora,
silêncio.


~ essa busca incessante pela verdade
tirou de mim
todo o mistério ~

maldito condomínio que cortou aquela árvore.

definhando
outra vez (?)

-

lis 8/8/2016

terça-feira, 2 de agosto de 2016

a lesma arrasta-se sorrateira.
rasteja em si apenas o que vê.
e o que vê são troncos robustos, crescentes.
avança sob folhas amarelas, já secas
enquanto a calçada parece estreitar.
teme a brisa, os ruídos, o concreto
mas os olhos - não os volta
pois sabe que já resta
apenas
o seu rastro.

02/08/2016

sábado, 30 de julho de 2016

cheguei domingo em minas.
na praça tiradentes: ouro, prata, o céu coberto de pipas
na rua
uma mulher cantarolava a música mais bonita da cidade.
e eu
de passo até tranquilo
de tanto encontrar a lua no céu ao amanhecer.

esperança - pensava 

a cada esquina que virava
e podia ver
sem ter
de
tocar.

lis

segunda-feira, 4 de julho de 2016

5:19

Me deixa estar
Pensamento agudo
Inquietante

Que não há mais
Seiva

Me deixa estar
Ideia fixa
Prepotente

Pensamento virado e
Revirado
Tão mais desconhecido
Agora
Que o destrinchei.

Me deixa estar
Que já não consigo
Fixar os olhos
Em linha reta

Fico dançando
Trôpega
Feito barata tonta
De tantas fantasias
Que cultivei

Se meus olhos
Pudessem
Também permitiriam
- em sua condição
de primeira chuva –
Que me pusesse a chorar

Muito embora
Teime
em encobrir
Todo e qualquer sentimento
Que se esconde
nas covas
de um sorriso

Quero
Tanto
Mas tanto!
Que me deixe

Ou sumo.

Lis 04/07/2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

atom

apressada
como se tudo
fosse
insípido

esperando
- tolice! -
o instante
revelador
preciso
revolucionário

a romper
o silêncio

como se os lábios
selados
fossem nó

e neles
se prendesse
a esperança
e o tempo.


lis 29/06/2016

domingo, 19 de junho de 2016

Infiatio

A voz que ecoa
Não é grito
Não é dor

A infâmia
Toma conta
Jaz insone
Entre a tormenta
E os verões

Vede a tua sina
E lamenta
Os sorrisos poupados
os risos ansiosos
ensurdecedores.

Da tua pele morta
brotam desejos
igualmente mortos.

E como choras!

Queria ver
Estas luzes
Navegando
Em noites escuras
De mares turbulentos

Quiçá compreendesse
O porquê
de mãos tão frias
me estender.

Lis 15/06/16

quarta-feira, 15 de junho de 2016

simulacro

criava escafandros
preenchidos
por problemas imaginários

a dor desmedida
de fato
enaltece as cores
do desespero
de quem 
nãotempeloquê.

de quem tem o peito 
recheado
de discos e livros
cenas
sóis
luas
sombras
qualquer aura
de poesia
repelente
de tudo
que é verdadeiro
e belo

bem sabia 
ser desnecessário
o espanto
ou
o estilhaçar
do simulacro

deve ser pesada 
a sombra que arrasta
teu delírio

no entanto
a realidade adorna
o jantar está posto
o bule apita.

pudera apossar-me
da calmaria
com que desfaz-te
quase que com fascínio
de toda paixão.

lis 13-15/06/2016

sábado, 11 de junho de 2016

outrarevisãoeterna

A torta de amora
Imóvel
Sob a mesa.

A cereja
Devorada
Entre os dentes

A ânsia contida
De correr
Sob o parapeito

E ainda há quem defenda
O fim
De todo
Silêncio


(de toda solidão/ou de toda tristeza)  lis 09/06/16

segunda-feira, 6 de junho de 2016

arevisãoeterna

ecoa
o som do martelo
na minha cabeça
e
emprega
essa ânsia
in
su
por

vel

que corrói
as quimeras mais belas
os surtos
tragicômicos
de quem
não conseguiu
decidir
se pisa no degrau
ou pula
a escada.

agora sim
exasperei
da tristeza polida
deste sentir
e não sentir
da espera
infantil
que evoca
o pôr do sol.

de repente
um estrondo
tão fugaz
como a graça
que o artista, insano, procura
eternizar
num esforço impossível
de subir aos céus

mas não sei,
não
sei
a extensão
das ideias
a que
pensei
ter curvado

tampouco
a profundidade
do parafuso.

lis 05/06/2016